Não dava para pensar noutra coisa que não fosse a eminência do trambolhão.
Não seria inédito, nem original.
Como de costume um cotovelo ficaria espetado na calçada aguardando pelo resto do esqueleto…
Mais abaixo duas figuras curvadas contornaram a esquina e do outro lado três jovens saíram a correr do café, metendo ombros à tarefa de chegar ao semáforo antes que o sinal ficasse verde.
Esforço perdido. O autocarro saiu sem eles nesse dia.
As ramadas dos plátanos rugiam sobre a minha cabeça abafando o ruído dos carros que ronronavam no cruzamento. O uivo duma ambulância despedaçou subitamente o fim de tarde. Nada parecia bater certo.
O pensamento seguiu o som angustiante durante algum tempo, até que uma sensação de urgência me apertou o estômago e se foi transformando em agonia.
Encostei-me à parede do prédio mais próximo e deslizei até à entrada. Sentei-me nos degraus. Fechei os olhos. Aguardei que o grito da ambulância se esbatesse dentro da cabeça e me devolvesse, se não o silêncio, pelo menos o barulho do vento nas folhas.
Não foi o barulho das folhas que me fez abrir os olhos.
“Tenho que te contar…”, reconheci a voz e a frase.
Não sei qual era o recado mas sei quem era o mensageiro.
Ainda se ouvia ao longe a sirene.
Qualquer tempo é bom para reencontrar o nosso fantasma.
Mesmo que o encontro seja furtivo.
Maria Augusta Marques. marquesmariaaugusta@hotmail.com

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