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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Instantes

Descia a avenida empurrada pelo vento lutando contra o remoinho de folhas que me tolhia os pés. O tempo demasiado seco fizera delas o tapete mais que perfeito para chegar rapidamente ao fundo de um qualquer quarteirão.

Não dava para pensar noutra coisa que não fosse a eminência do trambolhão.
Não seria inédito, nem original.
Como de costume um cotovelo ficaria espetado na calçada aguardando pelo resto do esqueleto…

Mais abaixo duas figuras curvadas contornaram a esquina e do outro lado três jovens saíram a correr do café, metendo ombros à tarefa de chegar ao semáforo antes que o sinal ficasse verde.
Esforço perdido. O autocarro saiu sem eles nesse dia.



As ramadas dos plátanos rugiam sobre a minha cabeça abafando o ruído dos carros que ronronavam no cruzamento. O uivo duma ambulância despedaçou subitamente o fim de tarde. Nada parecia bater certo.

O pensamento seguiu o som angustiante durante algum tempo, até que uma sensação de urgência me apertou o estômago e se foi transformando em agonia.

Encostei-me à parede do prédio mais próximo e deslizei até à entrada. Sentei-me nos degraus. Fechei os olhos. Aguardei que o grito da ambulância se esbatesse dentro da cabeça e me devolvesse, se não o silêncio, pelo menos o barulho do vento nas folhas.

Não foi o barulho das folhas que me fez abrir os olhos.

“Tenho que te contar…”, reconheci a voz e a frase.

Não sei qual era o recado mas sei quem era o mensageiro.

Ainda se ouvia ao longe a sirene.

Qualquer tempo é bom para reencontrar o nosso fantasma.

Mesmo que o encontro seja furtivo.


Maria Augusta Marques.  marquesmariaaugusta@hotmail.com 


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