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domingo, 26 de junho de 2011

Carta

Foi tudo tão rápido
que só agora senti a ausência da tua partida.
Quem amo escapa-me entre os dedos
e fico a amar de longe.
E outros há que ficam a magoar-me de longe.
E eu presa nas recordações que me amarram,
presa nos medos que me asfixiam.
Embrulhada na tristeza que me consome e luta,
diariamente, contra a pouca alegria que me mastiga,
que me tenta acordar... diariamente.


Longas são as tempestades que me acompanham
e menos longa a bonança que não chega
e não me abraça.
Longas e fortes as dores,
tristes as lágrimas que me embaraçam...

Beijos com amor...

Mónica Figueiras figueiras_monica@hotmail.com 

Consumir

Bem quisera eu não sofrer
deste mal que me conserva.
Fosse outra a dor que me consome,
da cabeça aos pés,
que me enxuvalha o peito,
que me maltrata a alma.
Fosse outra a dor que me consome.
Ai como queria não sentir, não pensar.
Ai como queria poder escolher.
Estar assim ressequida,
queimada  por dentro.
Esquecida de mim e de tudo.
Perdida no tempo, na mágoa,
no escuro que me consome,
na luz que me não guia.


Fosse eu outra, sendo sempre a mesma.
E porquê sentir, se isto aos poucos me mata?
E para quê calar-me se parece não existir em mim palavras,
que me expliquem o tempo,
que me ditem os medos,
que me iluminem os passos.
Encontro-me e perco-me
e desejo e anseio e espero,
que deixe de ser esta a dor que me consome.

Dentro e Fora (Amar)

Tenho dentro lágrimas de sangue,
Tenho fora lágrimas comuns.
Guardo dentro um grito cortado.
Guardo fora um grito silencioso.
Rasgo-me por dentro, em pedaços
E nesses pedaços, caminho por fora,
Com a segurança que tu me dás,
De dentro para fora.
Reconstruo cada pedaço, dentro,
Como um puzzle onde as peças se unem
Através de formas e cores.
E fora, aparentemente reconstruída, caminho.
Amar: por dentro e por fora
Pois o que está dentro reflecte, como um espelho,
O que te mostro fora.
E o que dentro chora,
Por fora sorri.
E o que dentro grita,
Fala-te, suavemente, por fora.
E o que dentro brilha,
Por fora é tão resplandecente como um raio de sol.

Amar…
E não fosse esse sentimento,
Tão grande, percorrendo por dentro,
As veias, o sangue… tudo…
Não gritaria em sorrisos por fora.
E se rio, choro, grito…
Cada um desses estados de ânimo
Nasceu por amar…
E se reflecte em mim!


Mónica Figueiras figueiras_monica@hotmail.com

Incolor…

As  palavras arrumo na gaveta, vazio
Está o espaço circundante da emoção
As rajadas assolaram pareciam furacão
Por fim o silencio acompanhado pelo frio
Nem o cobertor mais quente traz consolação
Os ossos fendem contorce-se a mão
Por entre os dedos não escorre nada, corrupio
Numa surdez bizantina, já nada me dá aflição  
A gaveta tem o simbolismo de um alçapão
Enterrarei nele a minha e a tua emoção
Porque me perco num tempo que não tenho
Porque ensaio danças que não sei
Eu sei, um dia quando as manhãs eram bonitas sonhei



Com palavras bonitas, todas as inventei
Numa invenção castrada, mas que caso sério
Foi este tempo que se foi agora sei
De um tempo em que palavras na tua boca desenhei
E agora que as arrumo na gaveta, pensei
Serei recta ao pensar sem lei
Que o tempo não se comanda mesmo quando dele desdenho
É ele que assume o fim quer queira quer não, é férreo
O tempo meu amor não entra em contradição
A sua frieza subtil agora sei é incolor e escorre-me da mão.


Antónia Ruivo antonia_ruivo@hotmail.com

terça-feira, 12 de abril de 2011

Uma serpente de luzes na planície

Um dia, se o meu filho se tornar jogador de futebol, poderei oferecer-lhe a fotografia de um dos segundos iniciais da sua carreira. Tirei-a num estádio do Alentejo com relvado sintético e dividido em pequenos campos para que pudesse haver vários jogos ao mesmo tempo. Foi num torneio para miúdos, pequeninos, daqueles que estão mesmo a começar, miúdos de equipas de fama bem diferente – basta pensar nas participações do Benfica e do Alandroal.


Quatro elementos em cada equipa, o guarda-redes, um jogador mais recuado e dois laterais capazes de chegar à baliza adversária; ou outra táctica que se quisesse arranjar. Quando o jogo da equipa do meu filho estava prestes a iniciar-se, subi ao ponto mais alto da bancada e com a objectiva fixei o campo que lhe tinha calhado em sorte. Por isso é que depois fiquei com a fotografia daquele segundo. Nessa fotografia, o guarda-redes mesmo sem o jogo ter começado tenta perceber se algum remate poderá surgir de repente. E à frente dele estão o meu filho e os dois restantes colegas, parecendo que trocam ideias sobre o que hão-de fazer. Talvez defender, pois a outra equipa, por ser de uma cidade grande, pode muito bem tê-los colocado em respeito. Talvez falem disso no seguimento de indicações do treinador. A verdade é que não sei, porque nunca fiz a pergunta.
O jogo acabou por ficar em zero a zero, com a equipa do meu filho a jogar mais à defesa e valendo-se em muito do guarda-redes, que a cada bola que aparecia por perto se atirava sobre ela para logo a seguir se enrolar como um gato. Foi o guarda-redes, e foram os outros que jogaram, todos contribuíram para o empate. E a chuva que teimava em cair, porque a certa altura do jogo ganhou tais proporções que todo o torneio teve de ser interrompido. Tornou-se tão forte que nem os jogadores da cidade grande, com os seus equipamentos impermeáveis, conseguiam jogar, quanto mais a equipa do meu filho, de equipamentos normais.
Mas e que a equipa do meu filho tivesse perdido… Ou que tivesse ganho, ou que o tempo estivesse de sol, ou que do céu em vez de água tivesse caído neve ou granizo… Tanto fazia, porque eu fiquei com a fotografia de um dos segundos iniciais da carreira de futebolista do meu filho, se ele algum dia fizer uma carreira no futebol. Talvez o primeiro segundo. Além de outras fotografias que fui tirando do alto da bancada. Aquela fotografia acabou por passar para a minha mente, porque eu já a vi várias vezes. Posso mesmo dizer que a decorei dentro da cabeça. A imagem de um momento em que o primeiro jogo do meu filho está mesmo, mesmo a começar.
Mas há outra imagem que tenho dentro da cabeça, só que não vem de uma fotografia. Não sei como, mas a verdade é que a decorei também, apesar de a ter visto apenas de forma fugaz. Apareceu-me no espelho retrovisor do carro, talvez uma hora antes do jogo. Chuva, muita chuva nessa imagem ainda do começo da tarde, a caminho do torneio. Os miúdos seguiam no autocarro da câmara, e eu logo atrás, de carro, sem ter pensado se outras famílias além da minha iriam ver os seus miúdos no torneio. A certa altura, com a força da chuva a dificultar-me a visibilidade, dei comigo a pensar no autocarro que seguia vinte ou trinta metros à frente. Não dava para ver bem, foi o que pensei, mas se fosse Verão haveria de perceber-se facilmente as cores fortes do Alentejo, azul, amarelo e vermelho, a pintura do autocarro com o céu limpo, o pasto dos campos e as papoilas, e também uma frase tirada com adaptações do final de um romance de José Saramago, a frase logo a seguir ao nome da terra, «cidade levantada e principal».
Lembro-me de ter pensado nisso. E de ter dito para mim próprio: «os miúdos vão para o torneio, agora que estão a começar no futebol, e vão num autocarro com uma frase enorme de um enorme escritor, não vão patrocinados pela Coca-Cola nem pela Nike (muito menos pela cerveja Sagres), nem sequer vão num autocarro que fala de apoio ao desporto e à juventude e mais uma data de coisas; os miúdos vão no autocarro da frase do Saramago». Foi o que eu disse só para mim, creio que com as minhas filhas pequeninas adormecidas, a julgar pelo silêncio dentro do carro. E então veio o momento do qual decorei a imagem, como depois haveria de decorar a do segundo antes de começar o primeiro jogo do meu filho. No meio daqueles pensamentos, de repente questionei-me se devia levar as luzes ligadas ou não, se deveria apagá-las por a chuva de repente ter começado a diminuir, e aí espreitei pelo espelho retrovisor para ver se atrás de mim algum carro também tinha as luzes ligadas, se é que vinha algum carro atrás de mim na estrada da planície alentejana, e logo percebi que havia muitos carros, e todos com luzes. As famílias dos outros miúdos… Só então é que reparei, depois de ter feito já algumas dezenas de quilómetros. Em que é que pensariam as pessoas desses carros? Como olhariam para o autocarro dos miúdos que avançava com eles para o torneio?
Comecei a contar os carros. Um, dois, três… Mas logo desisti, porque eram muitos, e eu tinha de concentrar-me na condução. Muitos carros, mesmo muitos. Formava-se uma fila na planície, na estrada que naquela altura fazia uma curva longa, uma fila de luzes passada para o meu espelho retrovisor, e foi essa imagem que eu decorei, como depois fiz com a da fotografia. A imagem de uma serpente de luzes na planície, pela estrada fora, atrás do autocarro da cidade levantada e principal.


António Manuel Venda amvenda@sapo.pt

sexta-feira, 25 de março de 2011

O livro da verdade


E agora daqui vamos aos Bilharins que está lá um palheiro da minha idade, tem piada eu ser da idade de um palheiro, eu vou explicar bem para que tudo fique sabendo. O Barahona velho comprou uma manada de burras, eram vinte e quatro para completar doze parelhas para lavrarem lá na herdade dos Bilharins, e mandou fazer uma arramada para a vivenda das ditas burras no monte da Aldeia de Cima, outra arramada na Azeiteira, outra arramada para a classe burrical, eram burras ricas, quem era moural um José Pancadas da Vera Cruz, ele tinha dois filhos, um José Pancadas, outro Ana Pancadas , calculem bem a vida das burras, falta de pancadas não tinham elas, a mulher do moural era Ana Poupa, uma bela geração. Agora vamos conferir a minha idade com o palheiro, foi simples, é que o meu pai andava fazendo o palheiro , as paredes eram de taipa e o meu pai pedreiro alvanel e fazia taipa e andava lá fazendo paredes, eu tinha um irmão com mais treze anos, o meu pai em fazendo taipa em tempo de chuva dormia lá no trabalho para quando chovesse tapar as paredes e o meu irmão vinha a casa na quarta-feira para levar mantimento para o resto da semana. Nasceu este objecto naquela noite de vinte e sete de Março às três da madrugada, ele no outro dia chegou lá e disse, Pai olhe, já lá temos mais outra lesma. É pelo motivo que eu digo quando me procuram a idade quando não me lembro de repente digo, Olha, sou da idade do palheiro dos Bilharins, e pronto.



José Inácio Horta moital@gmail.com

quinta-feira, 24 de março de 2011

O meu prédio tem 133 campainhas


... a maioria dos check-outs são tristes;
o meu matrimonial foi. muito. violento, até. houve outros;
olha, aquele na república dominicana, onde abundavam os fartos buffets;
hoje, quando o dinheiro escasseia no final do mês, cozinho feijão frade com sangacho...

... as saídas, dolorosas ou não, levam-nos a outras entradas;
quando saí do casamento, romantizei-me para recuperar o que de mim tinha caído ao chão;
sem dinheiro, mudei-me para um quarto de uma casa antiga, mas familiar;
os retratos, os naperons, as mobílias roídas pelas traças, os livros em francês e de educação sexual...

... meses depois, novo check-out. foi triste. muito. calmo, até;
procurei uma casa em vão até visitar o prédio das 133 campainhas;
a senhoria não precisou de me vender o espaço: gostei dele mal olhei as campainhas;
eu, no meu T0 e 132 delas a circundarem a minha. e já não me sinto tão triste.



Jorge Freitas Ferreira jorgefreitasferreira@gmail.com

A pedra é a mesma

A pedra é a mesma. Densa, dura e impenetrável como o amor não vivido.
Quando um dia ela falar e esvaziar os seus gritos, eu quero estar lá.
Falará de ti e de mim com a mesma inevitável ambiguidade de desencontros encontrados.
Falará da água que corre nas entranhas da fraga.
Falará dos sobreiros mudos e dos pássaros que lhe cantam canções de embalar.
Falará do segredo dos cardos e dos devaneios das papoilas.
Falará dos perfumes que nos lavam as dores.
Falará do tojo amarelo e da abelha a sugar-lhe o sangue.
Falará dos passos na terra a sangrar alegrias e tristezas.
Falará do pó nos nossos olhos.
Falará da lua e da nossa insustentável vaidade.
Falará indignada da urgência de sermos plural.

Regressará depois ao seu antigo lugar.


Custódia Santos custodia-santos@hotmail.com

A vida é uma estepe de neve amarela cravejada de espinhos voltaicos

A vida é uma estepe de neve amarela cravejada de espinhos voltaicos, seja isso o que for, mesmo que seja nada, não quero saber. Um dia é clara e aberta, noutro obscura como a flor que não chega a abrir e, cá estamos nós À ESPERA DELA IMPUNEMENTE INGÉNUOS E SERENOS. SENTAMO-NOS NAS ESQUINAS E VIMO-LA PASSAR COMO SE FOSSE A POEIRA QUE SE JUNTA DEBAIXO DAS NOSSA CAMAS, DESNECESSÁRIA, PORQUE NÃO SE VÊ. Ora era uma vez a vida……………………………………………………………………………………………………………………………………
A barriga redonda cheirava a melancia e a figos maduros do sol já entediado e patético de luz e corpos redondos. A nuvem desceu e a mulher ficou invisível e surpreendentemente aturdida de raivas e iras. O cheiro da melancia, dispersou-se pelo ar, e os pássaros ficaram frenéticos e as suas asas voaram sozinhas por dentro da chuva dissolvente. Ouviu-se um choro, e as asas desintegraram-se e caíram num campo de papoilas, que se preparavam para um dia de ousadas orgias. Era o mês de Abril e a primavera tinha-se esquecido de voltar a casa. ALGUM AMOR INCONTORNÁVEL E INEVITÁVEL. RESTAVA-NOS ESPERAR E FUGIR DO CAMPO DE PAPOILAS QUE, VOLTEAVAM NO AR AMARRADAS A ASAS LOUCAS E DISFORMES. O choro evidenciava agora uma premente serenidade de medos e alegrias muito breves. A mulher surgiu de dentro da sua invisibilidade e um abraço abafou mágoas intemporais e ancestrais. O sol rasgou intempéries, e sentou-se docemente nos degraus da casa amarela. A mulher aconchegou a criança ao peito e um mar de soluços encheu-lhe a voz de flor de laranjeira. Era vinte de Abril e o dia ameaçava crescer e demorar no seu inultrapassável vaguear de preguiça. A porta entreaberta convidava a entrar e os dois subiram os degraus como se a vida fosse começar agora. A luz branca invadiu-lhes os olhos cheios de impensáveis promessas. A primavera estava finalmente a chegar. A mulher encostou-se ao banco azul e percorreu, sem pressas, a sala cor de limão de móveis dispersos e coloridos de anos distantes.

A viagem tinha durado anos demais e o tempo nunca sabe perdoar. Se um espelho a visse agora não a reconheceria. Os anos não lhe foram leves e ela também não os amou o suficiente para os olhar. Deixou passá-los como se fossem autocarros de viagens sem regressos. A solidão nunca lhe pesou até hoje porque nem sequer a conhecia. Tinha voltado ao inevitável, o lugar onde nunca quis estar. A vida é uma estepe árida e insensata pensou, quando a temos nas nossas mãos ela simplesmente parte. Agora iria recomeçar, como alguns lhe diziam. Ela preferia continuar porque a vida não tem recomeços. Ou se vive ou não.

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O choro do filho lembrou-lhe que estava viva. A casa ainda distante chamou-a num sussurro preguiçoso e ela entrou. Tinha chegado a hora de a aceitar e voltar a amá-la.
A solidão escondeu-se atrás da porta e quando abraçou o filho soube logo que o futuro é já agora. Sem grandes pressas, numa casa amarela em qualquer lugar do mundo.



Custódia Santos custodia-santos@hotmail.com

O quarto

Tenho no meu quarto, penduradas na porta do guarda-fatos, duas bonecas.
Uma é um anjo. Um anjo da paz que me trouxeram os meus filhos de uma viagem que fizeram à Suécia.
Simboliza a “Paz”.
A minha paz interior, intimista e solitária como o ambiente do meu quarto quando a porta se fecha.
Simboliza também a paz que devemos uns aos outros e que leva à paz universal.
A outra é uma peregrina. Peregrina a Santiago de Compostela. Segura nas mãos a letra “J”. “J” de Jesus. Do meu Jesus que está longe, lá fora mas que me acompanha sempre dentro do meu coração.
Ofereceu-ma ele quando terminámos o primeiro “Caminho” juntos.
Simboliza o “Amor”.
O amor humano, o amor pelo homem que se manifesta quando a porta do quarto se fecha.
Simboliza também o amor maior aquele que nos leva a amar a vida e a defender aquilo em que acreditamos.
Todos os dias quando acordo tenho quatro olhinhos ternos e dois sorrisos doces a darem-me os bons dias e eu saio para a rua com a confiança que me dão, e a certeza de que quando voltar ao meu quarto à noite, encontrarei sempre a Paz e o Amor à minha espera, para me acompanharem em mais uma noite de sono tranquilo.


Etelvina Santos etelvina.mariadossantos@gmail.com

Pedras soltas

Os dias há muitos dias que eram iguais. As noites há muitas noites que eram as mesmas.
Num canto esquecido dum teatro, entre um muro fendado e húmido e uma porta esfolada, que ninguém abria desde há estreias já esquecidas, acordava sempre um homem, nas manhãs limpas ou espessas, e ali adormecia quando o dia partia.
Às vezes, pela vinda da noite, a luz não se apagava totalmente. Então ele contemplava o pedaço de lua branca, semelhante a uma unha, crescendo para coçar o céu com comichão de estrelas; era uma companhia que se deixava ficar até que o homem se entregasse ao primeiro sono.
Chamavam-lhe o Sem-Memória, e tinha nas mãos linhas duma vida encardida. A pele antiga, os olhos da cor de todas as cores que já vira, a boca inquieta, os lábios num teimoso jeito de palavra sempre inacabada e inaudível. E um passado de que não sabia ninguém.
Tinha por amigas umas quantas pedras da calçada, quase soltas, como num subversivo desejo de estragar a perfeição dos enfeites do chão. Ele precisava delas! E havia também por perto uma estátua, que de bom grado lhe estendia uns degraus em troca de nada. Raro caso.
A cada manhã, receava deixar sozinhas as suas sólidas companheiras, mas era preciso circular na cidade algumas horas, levar mensagens às ruas estreitas e trazer segredos das travessas que ninguém mais pisava. Era preciso atravessar praças e largos, acariciando-os com os pés quase descalços. Era urgente mexer-se no mundo, não fosse o mundo esquecer-se de se mover sozinho. Era essa a sua missão.
A memória gasta, mais puída que as roupas, já não lhe mostrava a razão, mas sentia que era seu dever tocar na cidade, como abelha que leva e traz o pólen das flores na Primavera.
Várias vezes no dia, porém, voltava e saudava o seu lar de pedras soltas. Quando vinha cansado, libertava os paralelepípedos de granito do chão, restando um buraco no caminho daqueles que ele não conhecia. Sentava-se aos pés da estátua, rodeava-se de velhos sacos cheios de nada e falava com as pedras. Imaginava que elas lhe respondiam com a voz de alguém do passado. Alguém que lhe gritara demais e que ele já esquecera…
«Essa barba está muito feia e longa e suja!»
«Tu não és esse rosto! Olha para essas rugas!»
E Sem-Memória, com dedos grossos mas delicados, rodava as pedras cúbicas e olhava todas as suas faces, como que esperando que uma fosse apenas silêncio. Apenas pedra.

Numa madrugada sem data, Sem-Memória tinha ainda os olhos fechados de não dormir e escutou passos, passos que pareciam tão antigos como os seus. Deitado junto à porta velha do teatro, ouviu aqueles pés a desacelerarem, sentiu-os parar. Abriu os olhos menos que a grossura das fendas do muro que o amparava e encontrou, desfocados, uns centímetros de pernas desconhecidas na vertical. Apertou as pálpebras, fingiu parar de respirar.
O sol veio roubar a escuridão um minuto depois, e os passos recomeçaram até que o seu som deixasse de se ouvir. Sem-Memória abriu, então, os olhos.
Ao seu lado, no chão, um lápis, uns desenhos, uns óculos, um compasso, um bilhete.
«Eram teus, talvez te recordes. Toma conta das tuas pedras.» Sem assinatura, apenas isto.
Sem perder muito tempo com o sentimento de mistério, colocou os óculos. Tem graça, via melhor! Observou com cuidado os outros objectos, e os seus lábios, mais inquietos que antes, tentavam palavras, como se estivesse à procura de coisas ditas um dia, frases suas. Em vão.
As pedras! Sem-Memórias confirmou que estavam soltas, no seu lugar.

Deixou o largo do teatro, para ir contar às ruas, às travessas e aos largos o que lhe acontecera. Levou apertados nas mãos os desenhos, o lápis e o compasso, e mesmo abandonado pela memória, soube que aquelas folhas tinham os traços e as curvas de calçadas por onde passava.
Esquecido do tempo, nesse dia só regressou à estátua e às suas pedras quando a luz estava pronta para se ir embora. Quis sentar-se nos degraus, convocar as pedras soltas e falar-lhes com os lábios nervosos… Mas já não conseguiu libertá-las. Alguém tinha vindo prendê-las ao chão e apertara-as umas contras as outras com areia.
Sem-Memória sossegou os lábios, sem nada para tentar dizer. Talvez pensasse: de todas as faces, apenas uma de cada pedra podia agora olhá-lo e fazer silêncio. Apenas pedra.



Vera Guita verusca26@gmail.com

Ao amigo fiel

- Olha mamã! Olha aquele cãozinho!
Por favor, mamã, leva o cachorrinho.
Olhar assustado, rabinho encolhido
Vai ser adoptado, fica agradecido
Que lindo “brinquedo” que o menino tem
Serve para o filho e serve para a mãe
Mas cachorro chora, faz xixi no chão
Juízo demora, lá vem confusão
Leva com chinelo, ouve gritaria
Aquele “brinquedo” só dá arrelia
- Olha mamã, olha este imbecil!
- Amanhã de manhã ele vai p’ro canil
Olhar assustado, rabinho encolhido
Vai ser rejeitado, vai ser abatido
Chora pelos donos, faz xixi no chão
Juízo já tem mas não tem perdão

Ou então
Na calada da noite, já ninguém vê nada
Depois do açoite é atirado p’ra estrada
Em correria louca, sem nada entender
Ele grita, ele pára, ele volta a correr
Desorientado, deambula sem tino
Pobre desgraçado, que triste destino!

(…) quem me dera poder esquecer o que já vi.



Conceição Costa (tozexavier@gmail.com)

Adormecer

Primeiro os pensamentos chegam em turbilhão,
invadem a mente sem pedir autorização.
Com a mente assim cheia,
o corpo fica pesado
e afunda-se no colchão
ou no abismo escuro do sono.
Mas de tanto cair no vazio
os pensamentos vão saindo lentamente,
a mente deixa de ter peso,
e torna-se leve,
flutuando num silêncio de águas calmas
ou de espaço exterior.
E já não é peso nem é leveza,
é outra coisa,
de que a mente não tem consciência,
mas o corpo reconhece
e se deixa abandonar ao torpor de entrar nessa outra dimensão
tão desconhecida e tão desejada.
Esse momento mágico,
quase divino
a que chamamos ADORMECER.



Etelvina Santos etelvina.mariadossantos@gmail.com

terça-feira, 22 de março de 2011

Rola a bola num charco de lama

Rola a bola num charco de lama
E um puto descansa na sua cama,
Tentado por um punhado de esperança.
Bebe em todas as fontes, jarros de fama
E sacode-se da multidão que o aclama
Perante a teimosa e irritada dança.

Rola com fúria o pião bailarino,
Sacudido pelo esticão do menino
Traquina, exibindo-se na sua revolta.
Bebe um jarro de elixir no átrio divino,
Para fortalecer o corpinho franzino
E sentir-se como um cavalo à solta.

Rola o mundo constipado a seus pés
E descansa o mar nas agitadas marés
Tentados pela falta de honestidade.
Bebem um gole de poção mágica ao invés
Da solidão. E transborda de lés a lés
A dureza desta sufocada sociedade.

Rola a sina de quem nasceu desvirtuado.
Possuído pela tristeza e desarmado,
Combatendo contra um exército agressivo.
Mas bebe coragem no rio encantado
Para derrotar de um a um, cada soldado
Que lhe fizer frente. Triste mas possessivo!

Rola a ansiedade na barriga esfomeada
Sentindo de meia em meia hora a badalada
De um relógio mágico prenunciando fome.
Bebe um jarro de culpa desencantada,
Proveniente da injustiça acelerada,
Desta maldita sociedade que o consome.

E rolando nesta confusão mundial
Vive o mundo perdido e saturado!
Caminhando aos trambolhões, sufocado,
Mas cantará um dia o hino universal.


Fernando Reis fernandoreis63@portugalmail.pt

Homens! Homens! Homens!

Homens! Homens! Homens! Como nos podem acusar de inconstantes e complicadas… Coitados dos homens, nunca sabem como têm que reagir ou o que dizer a uma mulher… Nunca sabem se nos devem oferecer uma flor ou dar-nos logo com a jarra… Eu cá prefiro que me dêem com ele em cima… Brincadeirinha…
Bem, dizia eu, o mês tem quatro semanas, numa delas estamos a sangrar constantemente, com dores de barriga que nos tiram a paciência para tudo… Na semana seguinte, estamos estafadas porque para além de termos passado uma semana de merda o nosso amigo, amante ou namorado quer recuperar o tempo perdido e não nos pode ver numa posição mais excitante que é logo pimba… e nós… que remédio…fazemos tudo para não o perder. E é claro, para o cativar, nessa semana estivemos uma hora a arrancar todos os Pelinhos com cera… que dói para o caraças… ainda por cima agora usa-se tirar tudo… para ficarmos como viemos ao mundo… estão a imaginar, completamente de pernas abertas, a conversar sobre a vida alheia quando nos apetece mandar a esteticista para todo o lado… Por falar em abertura, então e médicos… Prevenir o cancro da mama, ir ao ginecologista… A mulher está sempre a sofrer, enquanto os homens ficam com os tomates sentados no sofá.
Para piorar a situação, eles adoram ter uma mulher bem feitinha para mostrar aos amigos. Agora, respondam-me, como podemos estar bem dispostas quando passamos a vida a comer saladas quando nos apetece um bom bife, a beber água quando nos apetece uma boa imperial, a comer fruta quando dávamos tudo por um gelado?
“Há tanto tempo que não te vejo sorrir?” Pois é claro, como me posso rir se todos os buracos do meu corpo só me dão desgraças… Não posso comer, passo a vida a urinar de tanta água que bebo para tirar as gorduras, hemorróidas, também já tenho. quando me vejo ao espelho já vejo rugas na cara, estou sempre com o pingo no nariz e raramente oiço uma palavra que me encha o ego e me faça sentir realizada.
O mais frustrante é que fazemos tudo na vida por uma razão – os homens. Que nem sequer compreendem que são eles a razão de tanto sofrimento. Será que não percebe que preciso de ouvir dizer que estou linda, que preciso que me faça sentir única e especial, que preciso de um abraço… Que preciso que me pergunte se estou bem, se preciso de ajuda… Quero ouvir dizer que me adora, que me venera, que me idolatra… ou, simplesmente que o seu coração é meu, mesmo que um dia não tenha dinheiro para a depilação, mesmo que fique gorda e cheia de celulite, mesmo que fique uma velha chata… Só queria ser todos os dias linda para ti.


Carla Rodrigues carlacristinarodrigues@hotmail.com

Cansada...

Cansada,
Desta vida em chamas
Que me embriaga de um fogo,
Que não é meu.
Cansada,
De estar parada
Sem saber para onde vou
Envolvida num destino
De dor e humilhação.
Cansada,
Da terra, do sol, da lua.
De estar e não estar
E continuar aqui…
Sem ti, sem mim,
Sem algo que me prenda…
Cansada,
Desta aula que me atormenta,
Onde alguém fala
Sem ter noção do que diz,
Sufocada pelo medo
De chegar a ficar
Cansada…. De sofrer,
Cansada de escrever, de viver
Cansada de tudo e de todos
Mas vivendo,
À espera que algo me estimule

E que pare de viver… cansada!


Carla Rodrigues carlacristinarodrigues@hotmail.com

Catacumba metropolitana

Saiu da catacumba metropolitana num desespero de vazio. As suas armações intra-derme apertavam-se-lhe em efeito torniquete, abafando-lhe os pulmões até quase não poder respirar na ânsia de levar dois ou três cigarros à boca. Nesse dia, tudo tido ficado claro para ele. As viagens sucessivas depois do horário laboral na linha do metro haviam-no tornado toupeira, rasgando o pobre bicho acossado o subsolo da vida lá fora numa qualquer carruagem em que pudesse mirar os meneios das pessoas. Mas naquele dia saiu aflito e percorreu os lances de escada com a maior rapidez possível. Quando ainda viu o sol, pensou que tinha sido salvo da escuridão e das jornadas sem destino. Olhou-se como pôde, mas o súbito balancear dos braços dos transeuntes avulsos fê-lo regressar novamente a uns bons metros abaixo do nível dos seus pés em chama, voltando-lhe a despertar a noção da maquinação e fragilidade do organismo humano...

... as manhãs são de mau acordar e assim ruma ao trabalho enfadonho num pequeno escritório de contabilidade. O seu gabinete, minúsculo, é o único que não tem retratos de sobrinhos, namorados com nuances capilares ou caniches de água. Por sua vez, as suas colegas, Anabela e Flor, ambas de pequenas localidades provincianas do Norte, têm tralha suficiente para vender na Feira da Ladra ou outras afins. – O tempo hoje não está tão ‘buã’ como ontem, pois não, Flor? – É esta ‘t'chuba’ maldita que estraga tudo! Vão da cumplicidade do gesto aos estalidos regionais acrobáticos da fala… e vedam-lhe o silêncio. Mas o que mais o transtorna é o declive da graciosidade da vida. Para ele, desde que se divorciou de um casamento de três anos, oito meses e mais uns quantos dias de uma mulher que o abafava com a sua alegria desesperante, a vida continuava a correr a conta gotas: sem a emoção de uma lotaria ganha durante uma intempérie teimosa. No dia do seu casamento sentiu de novo as fortes dores provocadas pela sua hérnia inguinal. Tinha pedido a Teresa, a sua futura consorte, que adiasse a cerimónia para cumprir o dia de cirurgia, mas urgia nela o desejo de desfilar no seu haute-couture branco e negou-o. Soltara-se-lhe na pele uma urticária descomunal e deixou-se entregue ao imaginário por uns leves 10 segundos de homicídio pouco contemplativo. Ardia nele a leitura ruminante que fazia dos convidados aquando das suas expressões alienadas no abrir do copo de água e a das cedências exangues. Dos inevitáveis consumos mínimos obrigatórios depositados em envelopes. Ainda por cima, a sua mulher despertava nos homens uma quase incontida vontade de a consumir como às caixas de fósforos de vinte cêntimos, em registo de fumador fabril. Tinha quase 1,70 e pouco mais de 50 quilos. Além dos seus pequenos e insinuantes seios, juntas, as suas nádegas rijas e sem vestígios de desconserto, anunciavam persuasivas arritmias e nele, naturalmente, um ciúme electrizante. As dores cegavam-no cada vez mais e nem o cair da noite, depois do bacalhau, dos bifinhos, dos colarinhos apertados e da vontade de se descalçar, lhe restabelecera a esperança de que o dia seguinte fosse melhor...


Jorge Freitas Ferreira jorgefreitasferreira@gmail.com

domingo, 13 de março de 2011

Viagem da palavra

Bem sabe a palavra
do que cala
e (se) perde
na recusa de ganhar
a falsa verve
buscando só a utopia
e apenas no risco do falar
o tempo fixa sem lugar
meu norte porfiado em voo tardio

Sem bússola foi, que nesta nave embarquei
buscando o sol, a lua, a estrela da manhã
perdido tantas vezes naveguei
sem astrolábio que não quis me encontrei
e tantas outras me perdi em busca vã
nunca dando por final esta viagem
aproando a terras estranhas me encantei
julgando cais ao que era só miragem

Navego a Norte
Abro a carta sobre a mesa
circulo dois pontos
o lugar onde estou
o lugar aonde vou
traço a rota e o rumo
na escala correcta
calculo a distância
meus braços se estendem
procuro-te os olhos
aspiro o teu cheiro
... e acordo
maldizendo a forma da Terra
as montanhas
o espaço e o tempo
e a luz da manhã
que me roubam o sonho


José Brás jasbras1@sapo.pt

Álbum de Fotografias (desfocadas)

Desfio-te página a página nas fotos que pões no álbum, retardando o meu olhar no teu, em cada uma, buscando o que talvez nem saiba bem, dentro de mim, que busca faço no tempo que foi antes do agora.
Digo eu, às vezes, que o tempo não existe, que o tempo são apenas biliões de agoras que nascem e morrem em si próprios, e que renascem, diferentes, de cada vez que em memória os visitamos.
E disseste-me tu que temos apenas a idade de nossa alma. Estranhos poemas são esses que dizemos, querendo ganhar o sonho de ser, sem a soma do ter sido, e que em si próprios se desconstroem na dor de um tardio hoje, distante do que o hoje seria, se fosse ontem.
Não sei, nem do tempo do começo, nem do começo do tempo. Sei apenas que olho dentro de ti, nos olhos tristes e doces de cada foto, e me dói a distância que ontem me separava da inquietação que te leio hoje e na imagem de um futuro impossível.
Chamo por ti. Digo o teu suposto nome, como dizes que é, como te chamarão os que de ti se acercam.
Digo-o mesmo sem juntar os sons dele, pressentindo-o apenas, sentindo-lhe o sabor, a sugestão da música nas sílabas juntas, o cheiro de teu mar salgado e doce.
Nasce dentro de mim um poema novo, não no ritmo das palavras se fossem ditas, ou na tinta delas quando escritas, mas no arrepio que me dás porque te olho e te recrio poema sereno feito só do que fica na invenção que intento, mergulhando em ti no projecto do gesto que busca a tua mão, o cheiro da pele, os olhos que te mostram ausente de ti própria...
Escrevo-te o poema na comoção de um sentimento que galvaniza, que me levanta e que me quebra, na respiração que suspendo, no sonho do delta que guardas a Sul. Poema erótico, construído assim, de ti, para ti, ou, simplesmente por ti, mulher-infinito; mulher-imagem-de-mulher.
E que outra poesia há para se sonhar, mesmo quando quem a escreve nem disso se aperceba?
Eu, quando isto escrevo, falo de poesia, daquela que escreves cheia de talento, nessa forma só, de te pores nas fotos, de olhares o mundo dentro do vazio que nelas aparentas ver, de escrevê-la eu se entrasse em ti na exaltação do completo e aniquilando esta quotidiana sensação do quase, apenas.
E volto atrás, revendo, revendo-te mansa e solitária, ou inventando eu a imagem que quero encontrar em ti, viajando por dentro da saudade, um rio que extravasa a minha foz e na verdade morrendo de teu mar, achando-me saciado em teu corpo, se inteira te tenho em meu sonho, no esplendor maior do verbo amar, sussurrando de voz rouca no desejo de almejar só o que não vejo, sem alcançar, sequer, a tua flor.
Pelos olhos e mãos e alma pura, faz-me teu e cala-me nesta voz de perguntar-te se o tempo, afinal, como me dizia Maura nas noites quentes do Hotel Catussaba, em Salvador, o tempo, essa entidade que digo que não existe porque nunca somos apenas o que somos, mas o que fomos antes e o que seremos depois, se esse tempo existe mesmo, nesta dor de te sentir sonho, apenas, o sonho que sempre tive e terei até ao último dos meus dias, este buraco dorido do ser quase e nunca ser.


José Brás jasbras1@sapo.pt

Indizível

O silêncio das palavras
é tão só o indizível
da Alma,
da mais profunda anatomia
do sentimento…
Nas águas passadas
flui o que de mais
genuíno temos aqui…
dentro.
O que somos,
o que dizemos,
nem sempre as palavras
são ouvidas
com o nosso pensamento.
E somos tão pouco,
mas tanto
em mistério e consistência;
e tanto
no indizível consciente
da nossa inconsciência.



Jacinta Salgueiro jacinta.salgueiro@gmail.com

Inconsistências

Em constantes duetos,
a solo ou contigo,
não sei bem
que melodias canto
para me pensar.
Que aguarelas escolho
para sombrear
a lívida claridade
desta fugaz tela
inacabada: sempre…
Já me perdi nas noites,
a pensar em algo
que nunca acontece,
simplesmente porque
não queria que acontecesse
ou desejaria
já ter acontecido.
E há outros passos
para preencher a alma,
num bailado de cisnes
esvoaçantes…
num concerto de notas
inconsistentes…

Jacinta Salgueiro jacinta.salgueiro@gmail.com

quinta-feira, 3 de março de 2011

Raiz

A cada estrada, preferi uma clareira no bosque.
A cada viagem, preferi os estalos dos toros sob a chama.
A cada difícil suspiro, o teu peito insuflado.


O meu frágil e quebradiço esqueleto afasta-me das gentes e do lado mais ruidoso do mundo. Aspiro a deixar-me envolver pelas suaves arestas granizadas das folhas que um dia hão-de ajudar-me a decompor. Hei-de entranhar na terra!


Nos entrecortados percursos que fazemos juntos, tu e eu, ramifico como o agarrar de um caule que não quer ser arrancado, que não quer largar o seu bocado de terra. É assim que procuro segurar-nos a cada saliência, a cada esquina (quando curvamos), a cada irregularidade do relevo das matérias que roçamos. E tu contas comigo; sabes que te aperto nos braços e que assim contrariamos as forças de cada solavanco, em cada paragem mais forte, em cada enlace, na avidez de te deter… comigo.


Ofuscados pelas luzes brilhantes e irrequietas das pontes e dos carros, pelos sons das máquinas e pelos fumos, os nossos olhos quase cegaram. Liquefeitos pelos tremores dos comboios, pelas calçadas dos passeios, pelos medos dos deveres e das horas, os nossos pés derreteram.
E foi por estas e por outras que tu, que tão bem pintavas, me deixaste descobrir uma ponta do véu que cobria as tintas frescas dos últimos quadros. Foste tu que me mostraste os meus destinos… e o último deles.


Tenho vinculado os teus desejos às minhas vontades. As tuas mentiras edificam as minhas verdades. O teu sabor nutre-me os desejos.


António Xavier tozexavier@gmail.com

A palmeira


Teria agora uma palmeira. Um cenário naturalmente importado; nada tinha a ver com o sítio onde vivia, mas fazia parte dos seus segredos. Quando crescesse, enriqueceria. Teria aquilo que têm as pessoas ricas, com palmeiras e tudo o que lembrasse estar de férias. Uma palmeira adulta a enterrar no canteiro do jardim….



Vivia com uma mulher loira. Era baixa, mas usava salto alto. Mostrava frequentemente a perna pouco acima do joelho. Em tempos, fazia-o imaginar que a custo engelhava o tecido na forma ascendente. Agora já não pensava muito nisso. Pensava em ganhar dinheiro.
Pensava que com mais um negócio faria mais dinheiro. Os actos não compreendiam legalidades e não se fundavam em ilegalidades; eram antevisões de maior conforto, de maior reconhecimento generalizado da importância da sua pessoa. Relevo na sua existência. Melhores vícios; mais refinados prazeres.


Um dois-lugares.
Um dois-lugares parado à sombra da palmeira.
Um dois-lugares parado à porta. Com a mulher ao lado. Calada.

Calada, a mulher. Não fala dos dispêndios nem das frustrações; nem de como a cadeia de aquisições despoletou prisões de peito; alienação.
Ele julga que ela tem amantes, ou pelo menos um amante. É-lhe indiferente, na realidade que assim seja. Convém-lhe que ela não largue o assento do lado do dois-lugares porque na fotografia, ela está bem ali.
Quem nunca quis filhos? Ela abortou em segredo. Ele nunca soube porque ela nunca soube se queria manter aquela união de facto. Ela queria poder esfumar-se, um dia. Mas faziam dezoito anos de vida a dois, contados dois dias do implante da palmeira.
A Mariana fez dois anos, três dias passados do implante da palmeira. Era engraçada como a madrinha, não bonita. Dizia as terminações das palavras. “Ana” era princípio e terminação, não fosse um monossílabo fácil disparado da boca da menina. Isso orgulhava Ana, a madrinha.
Afilhada, sim.
Filhos não.
Filhos dele, não.

As revistas eram dela. Os jornais, dele. Folheavam lado a lado o que tocava a cada um, sem prestarem realmente atenção ao recheio das folhas.
Em Ana não ficavam marcas de bugigangas nem formas de andar na passarela. Ficavam apenas imagens que não a faziam parecer mal. Ela e a sua postura estariam tão correctas quanto a quase discrição que queria aparentar.
Em João, ficava a actualidade da sua predisposição para a informação nas gordas. Ler as gordas, sem esforço, era a primeira ginástica do dia. Palavras esquecidas depois do café, quando não sugeriam um ou outro comentário à mulher; duas de boca e, depois, o silêncio submisso à rádio do dois-lugares. Nunca iam a pé tomar o café.
Há dias, Ana encontrou uma amiga da hidroginástica e contou-lhe tudo. Só a ela.

António Xavier tozexavier@gmail.com

Saudades...

Dizem que os rios para sul correm
Que as andorinhas voltam na Primavera
Que não se deve viver de quimeras
Que sonhos são penas que nunca morrem
Que dias felizes quase sempre escorrem
Por entre os dedos em pedaços de espera
Que se alberga no peito em saudade que impera
Que inunda os sentidos, teimosa em esfera
Que rodopia, não adormece na mente aflita
Mesmo que teime em chamar-lhe desdita
Saudades são cadilhos na ponta da manta

Com que me cubro quando fecho os olhos
E as saudades florescem em fartos molhos
Porque partiste, e me abafa a garganta.


Maria Antonia Ruivo antonia_ruivo@hotmail.com

Poema

Um poema
Escorre da pena
Sob o olhar mortiço
De um candelabro
Suspiros
Em forma de lágrima
Ais, arremessos
De poeta alheado…

Ou talvez não
Escorre submissa
A palavra
a pena do poeta
Ilusão
Que jorra viscosa
Em folha branca
Paixão
Por entre névoa
Água gelada
Contradição
Crer que não pensa
Negação suspensa
Solidão
Do poeta, avessa

Ao olhar do outro lado…

Maria Antonia Ruivo
antonia_ruivo@hotmail.com