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quinta-feira, 24 de março de 2011

Pedras soltas

Os dias há muitos dias que eram iguais. As noites há muitas noites que eram as mesmas.
Num canto esquecido dum teatro, entre um muro fendado e húmido e uma porta esfolada, que ninguém abria desde há estreias já esquecidas, acordava sempre um homem, nas manhãs limpas ou espessas, e ali adormecia quando o dia partia.
Às vezes, pela vinda da noite, a luz não se apagava totalmente. Então ele contemplava o pedaço de lua branca, semelhante a uma unha, crescendo para coçar o céu com comichão de estrelas; era uma companhia que se deixava ficar até que o homem se entregasse ao primeiro sono.
Chamavam-lhe o Sem-Memória, e tinha nas mãos linhas duma vida encardida. A pele antiga, os olhos da cor de todas as cores que já vira, a boca inquieta, os lábios num teimoso jeito de palavra sempre inacabada e inaudível. E um passado de que não sabia ninguém.
Tinha por amigas umas quantas pedras da calçada, quase soltas, como num subversivo desejo de estragar a perfeição dos enfeites do chão. Ele precisava delas! E havia também por perto uma estátua, que de bom grado lhe estendia uns degraus em troca de nada. Raro caso.
A cada manhã, receava deixar sozinhas as suas sólidas companheiras, mas era preciso circular na cidade algumas horas, levar mensagens às ruas estreitas e trazer segredos das travessas que ninguém mais pisava. Era preciso atravessar praças e largos, acariciando-os com os pés quase descalços. Era urgente mexer-se no mundo, não fosse o mundo esquecer-se de se mover sozinho. Era essa a sua missão.
A memória gasta, mais puída que as roupas, já não lhe mostrava a razão, mas sentia que era seu dever tocar na cidade, como abelha que leva e traz o pólen das flores na Primavera.
Várias vezes no dia, porém, voltava e saudava o seu lar de pedras soltas. Quando vinha cansado, libertava os paralelepípedos de granito do chão, restando um buraco no caminho daqueles que ele não conhecia. Sentava-se aos pés da estátua, rodeava-se de velhos sacos cheios de nada e falava com as pedras. Imaginava que elas lhe respondiam com a voz de alguém do passado. Alguém que lhe gritara demais e que ele já esquecera…
«Essa barba está muito feia e longa e suja!»
«Tu não és esse rosto! Olha para essas rugas!»
E Sem-Memória, com dedos grossos mas delicados, rodava as pedras cúbicas e olhava todas as suas faces, como que esperando que uma fosse apenas silêncio. Apenas pedra.

Numa madrugada sem data, Sem-Memória tinha ainda os olhos fechados de não dormir e escutou passos, passos que pareciam tão antigos como os seus. Deitado junto à porta velha do teatro, ouviu aqueles pés a desacelerarem, sentiu-os parar. Abriu os olhos menos que a grossura das fendas do muro que o amparava e encontrou, desfocados, uns centímetros de pernas desconhecidas na vertical. Apertou as pálpebras, fingiu parar de respirar.
O sol veio roubar a escuridão um minuto depois, e os passos recomeçaram até que o seu som deixasse de se ouvir. Sem-Memória abriu, então, os olhos.
Ao seu lado, no chão, um lápis, uns desenhos, uns óculos, um compasso, um bilhete.
«Eram teus, talvez te recordes. Toma conta das tuas pedras.» Sem assinatura, apenas isto.
Sem perder muito tempo com o sentimento de mistério, colocou os óculos. Tem graça, via melhor! Observou com cuidado os outros objectos, e os seus lábios, mais inquietos que antes, tentavam palavras, como se estivesse à procura de coisas ditas um dia, frases suas. Em vão.
As pedras! Sem-Memórias confirmou que estavam soltas, no seu lugar.

Deixou o largo do teatro, para ir contar às ruas, às travessas e aos largos o que lhe acontecera. Levou apertados nas mãos os desenhos, o lápis e o compasso, e mesmo abandonado pela memória, soube que aquelas folhas tinham os traços e as curvas de calçadas por onde passava.
Esquecido do tempo, nesse dia só regressou à estátua e às suas pedras quando a luz estava pronta para se ir embora. Quis sentar-se nos degraus, convocar as pedras soltas e falar-lhes com os lábios nervosos… Mas já não conseguiu libertá-las. Alguém tinha vindo prendê-las ao chão e apertara-as umas contras as outras com areia.
Sem-Memória sossegou os lábios, sem nada para tentar dizer. Talvez pensasse: de todas as faces, apenas uma de cada pedra podia agora olhá-lo e fazer silêncio. Apenas pedra.



Vera Guita verusca26@gmail.com