Abriste a gaveta… As tuas obras inacabadas ainda lá estão e dizem do passado que já não intimida; das coisas e dos outros, de desordens e cedências, de amores e ódios e choros, de avanços e recuos que marcam o suave declive rugoso das horas... E tu estiveste nas tuas palavras como ora estás para as ler ou para as ouvir daquele que as reconheceu em cortinas de emoções ou que quer fazer jus à sua música. Traz ou despreza o disfarce, mas vem ler connosco!
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quinta-feira, 3 de março de 2011
A palmeira
Teria agora uma palmeira. Um cenário naturalmente importado; nada tinha a ver com o sítio onde vivia, mas fazia parte dos seus segredos. Quando crescesse, enriqueceria. Teria aquilo que têm as pessoas ricas, com palmeiras e tudo o que lembrasse estar de férias. Uma palmeira adulta a enterrar no canteiro do jardim….
Vivia com uma mulher loira. Era baixa, mas usava salto alto. Mostrava frequentemente a perna pouco acima do joelho. Em tempos, fazia-o imaginar que a custo engelhava o tecido na forma ascendente. Agora já não pensava muito nisso. Pensava em ganhar dinheiro.
Pensava que com mais um negócio faria mais dinheiro. Os actos não compreendiam legalidades e não se fundavam em ilegalidades; eram antevisões de maior conforto, de maior reconhecimento generalizado da importância da sua pessoa. Relevo na sua existência. Melhores vícios; mais refinados prazeres.
Um dois-lugares.
Um dois-lugares parado à sombra da palmeira.
Um dois-lugares parado à porta. Com a mulher ao lado. Calada.
Calada, a mulher. Não fala dos dispêndios nem das frustrações; nem de como a cadeia de aquisições despoletou prisões de peito; alienação.
Ele julga que ela tem amantes, ou pelo menos um amante. É-lhe indiferente, na realidade que assim seja. Convém-lhe que ela não largue o assento do lado do dois-lugares porque na fotografia, ela está bem ali.
Quem nunca quis filhos? Ela abortou em segredo. Ele nunca soube porque ela nunca soube se queria manter aquela união de facto. Ela queria poder esfumar-se, um dia. Mas faziam dezoito anos de vida a dois, contados dois dias do implante da palmeira.
A Mariana fez dois anos, três dias passados do implante da palmeira. Era engraçada como a madrinha, não bonita. Dizia as terminações das palavras. “Ana” era princípio e terminação, não fosse um monossílabo fácil disparado da boca da menina. Isso orgulhava Ana, a madrinha.
Afilhada, sim.
Filhos não.
Filhos dele, não.
As revistas eram dela. Os jornais, dele. Folheavam lado a lado o que tocava a cada um, sem prestarem realmente atenção ao recheio das folhas.
Em Ana não ficavam marcas de bugigangas nem formas de andar na passarela. Ficavam apenas imagens que não a faziam parecer mal. Ela e a sua postura estariam tão correctas quanto a quase discrição que queria aparentar.
Em João, ficava a actualidade da sua predisposição para a informação nas gordas. Ler as gordas, sem esforço, era a primeira ginástica do dia. Palavras esquecidas depois do café, quando não sugeriam um ou outro comentário à mulher; duas de boca e, depois, o silêncio submisso à rádio do dois-lugares. Nunca iam a pé tomar o café.
Há dias, Ana encontrou uma amiga da hidroginástica e contou-lhe tudo. Só a ela.
António Xavier tozexavier@gmail.com
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