A vida é uma estepe de neve amarela cravejada de espinhos voltaicos, seja isso o que for, mesmo que seja nada, não quero saber. Um dia é clara e aberta, noutro obscura como a flor que não chega a abrir e, cá estamos nós À ESPERA DELA IMPUNEMENTE INGÉNUOS E SERENOS. SENTAMO-NOS NAS ESQUINAS E VIMO-LA PASSAR COMO SE FOSSE A POEIRA QUE SE JUNTA DEBAIXO DAS NOSSA CAMAS, DESNECESSÁRIA, PORQUE NÃO SE VÊ. Ora era uma vez a vida……………………………………………………………………………………………………………………………………
A barriga redonda cheirava a melancia e a figos maduros do sol já entediado e patético de luz e corpos redondos. A nuvem desceu e a mulher ficou invisível e surpreendentemente aturdida de raivas e iras. O cheiro da melancia, dispersou-se pelo ar, e os pássaros ficaram frenéticos e as suas asas voaram sozinhas por dentro da chuva dissolvente. Ouviu-se um choro, e as asas desintegraram-se e caíram num campo de papoilas, que se preparavam para um dia de ousadas orgias. Era o mês de Abril e a primavera tinha-se esquecido de voltar a casa. ALGUM AMOR INCONTORNÁVEL E INEVITÁVEL. RESTAVA-NOS ESPERAR E FUGIR DO CAMPO DE PAPOILAS QUE, VOLTEAVAM NO AR AMARRADAS A ASAS LOUCAS E DISFORMES. O choro evidenciava agora uma premente serenidade de medos e alegrias muito breves. A mulher surgiu de dentro da sua invisibilidade e um abraço abafou mágoas intemporais e ancestrais. O sol rasgou intempéries, e sentou-se docemente nos degraus da casa amarela. A mulher aconchegou a criança ao peito e um mar de soluços encheu-lhe a voz de flor de laranjeira. Era vinte de Abril e o dia ameaçava crescer e demorar no seu inultrapassável vaguear de preguiça. A porta entreaberta convidava a entrar e os dois subiram os degraus como se a vida fosse começar agora. A luz branca invadiu-lhes os olhos cheios de impensáveis promessas. A primavera estava finalmente a chegar. A mulher encostou-se ao banco azul e percorreu, sem pressas, a sala cor de limão de móveis dispersos e coloridos de anos distantes.
A viagem tinha durado anos demais e o tempo nunca sabe perdoar. Se um espelho a visse agora não a reconheceria. Os anos não lhe foram leves e ela também não os amou o suficiente para os olhar. Deixou passá-los como se fossem autocarros de viagens sem regressos. A solidão nunca lhe pesou até hoje porque nem sequer a conhecia. Tinha voltado ao inevitável, o lugar onde nunca quis estar. A vida é uma estepe árida e insensata pensou, quando a temos nas nossas mãos ela simplesmente parte. Agora iria recomeçar, como alguns lhe diziam. Ela preferia continuar porque a vida não tem recomeços. Ou se vive ou não.
.
O choro do filho lembrou-lhe que estava viva. A casa ainda distante chamou-a num sussurro preguiçoso e ela entrou. Tinha chegado a hora de a aceitar e voltar a amá-la.
A solidão escondeu-se atrás da porta e quando abraçou o filho soube logo que o futuro é já agora. Sem grandes pressas, numa casa amarela em qualquer lugar do mundo.
Custódia Santos custodia-santos@hotmail.com
Abriste a gaveta… As tuas obras inacabadas ainda lá estão e dizem do passado que já não intimida; das coisas e dos outros, de desordens e cedências, de amores e ódios e choros, de avanços e recuos que marcam o suave declive rugoso das horas... E tu estiveste nas tuas palavras como ora estás para as ler ou para as ouvir daquele que as reconheceu em cortinas de emoções ou que quer fazer jus à sua música. Traz ou despreza o disfarce, mas vem ler connosco!
Inscreva-se!
A tabela partilhada para que se compremeta a conviver connosco encontra-se em...
https://docs.google.com/document/d/17b_cU7NF34s6ON9cdRwRfTJPN8C5FPvLLEqOfdmhvPw/edit?authkey=CKD7x4EL&hl=pt_PT&pli=1#
https://docs.google.com/document/d/17b_cU7NF34s6ON9cdRwRfTJPN8C5FPvLLEqOfdmhvPw/edit?authkey=CKD7x4EL&hl=pt_PT&pli=1#
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário