Um dia, se o meu filho se tornar jogador de futebol, poderei oferecer-lhe a fotografia de um dos segundos iniciais da sua carreira. Tirei-a num estádio do Alentejo com relvado sintético e dividido em pequenos campos para que pudesse haver vários jogos ao mesmo tempo. Foi num torneio para miúdos, pequeninos, daqueles que estão mesmo a começar, miúdos de equipas de fama bem diferente – basta pensar nas participações do Benfica e do Alandroal.
Quatro elementos em cada equipa, o guarda-redes, um jogador mais recuado e dois laterais capazes de chegar à baliza adversária; ou outra táctica que se quisesse arranjar. Quando o jogo da equipa do meu filho estava prestes a iniciar-se, subi ao ponto mais alto da bancada e com a objectiva fixei o campo que lhe tinha calhado em sorte. Por isso é que depois fiquei com a fotografia daquele segundo. Nessa fotografia, o guarda-redes mesmo sem o jogo ter começado tenta perceber se algum remate poderá surgir de repente. E à frente dele estão o meu filho e os dois restantes colegas, parecendo que trocam ideias sobre o que hão-de fazer. Talvez defender, pois a outra equipa, por ser de uma cidade grande, pode muito bem tê-los colocado em respeito. Talvez falem disso no seguimento de indicações do treinador. A verdade é que não sei, porque nunca fiz a pergunta.
O jogo acabou por ficar em zero a zero, com a equipa do meu filho a jogar mais à defesa e valendo-se em muito do guarda-redes, que a cada bola que aparecia por perto se atirava sobre ela para logo a seguir se enrolar como um gato. Foi o guarda-redes, e foram os outros que jogaram, todos contribuíram para o empate. E a chuva que teimava em cair, porque a certa altura do jogo ganhou tais proporções que todo o torneio teve de ser interrompido. Tornou-se tão forte que nem os jogadores da cidade grande, com os seus equipamentos impermeáveis, conseguiam jogar, quanto mais a equipa do meu filho, de equipamentos normais.
Mas e que a equipa do meu filho tivesse perdido… Ou que tivesse ganho, ou que o tempo estivesse de sol, ou que do céu em vez de água tivesse caído neve ou granizo… Tanto fazia, porque eu fiquei com a fotografia de um dos segundos iniciais da carreira de futebolista do meu filho, se ele algum dia fizer uma carreira no futebol. Talvez o primeiro segundo. Além de outras fotografias que fui tirando do alto da bancada. Aquela fotografia acabou por passar para a minha mente, porque eu já a vi várias vezes. Posso mesmo dizer que a decorei dentro da cabeça. A imagem de um momento em que o primeiro jogo do meu filho está mesmo, mesmo a começar.
Mas há outra imagem que tenho dentro da cabeça, só que não vem de uma fotografia. Não sei como, mas a verdade é que a decorei também, apesar de a ter visto apenas de forma fugaz. Apareceu-me no espelho retrovisor do carro, talvez uma hora antes do jogo. Chuva, muita chuva nessa imagem ainda do começo da tarde, a caminho do torneio. Os miúdos seguiam no autocarro da câmara, e eu logo atrás, de carro, sem ter pensado se outras famílias além da minha iriam ver os seus miúdos no torneio. A certa altura, com a força da chuva a dificultar-me a visibilidade, dei comigo a pensar no autocarro que seguia vinte ou trinta metros à frente. Não dava para ver bem, foi o que pensei, mas se fosse Verão haveria de perceber-se facilmente as cores fortes do Alentejo, azul, amarelo e vermelho, a pintura do autocarro com o céu limpo, o pasto dos campos e as papoilas, e também uma frase tirada com adaptações do final de um romance de José Saramago, a frase logo a seguir ao nome da terra, «cidade levantada e principal».
Lembro-me de ter pensado nisso. E de ter dito para mim próprio: «os miúdos vão para o torneio, agora que estão a começar no futebol, e vão num autocarro com uma frase enorme de um enorme escritor, não vão patrocinados pela Coca-Cola nem pela Nike (muito menos pela cerveja Sagres), nem sequer vão num autocarro que fala de apoio ao desporto e à juventude e mais uma data de coisas; os miúdos vão no autocarro da frase do Saramago». Foi o que eu disse só para mim, creio que com as minhas filhas pequeninas adormecidas, a julgar pelo silêncio dentro do carro. E então veio o momento do qual decorei a imagem, como depois haveria de decorar a do segundo antes de começar o primeiro jogo do meu filho. No meio daqueles pensamentos, de repente questionei-me se devia levar as luzes ligadas ou não, se deveria apagá-las por a chuva de repente ter começado a diminuir, e aí espreitei pelo espelho retrovisor para ver se atrás de mim algum carro também tinha as luzes ligadas, se é que vinha algum carro atrás de mim na estrada da planície alentejana, e logo percebi que havia muitos carros, e todos com luzes. As famílias dos outros miúdos… Só então é que reparei, depois de ter feito já algumas dezenas de quilómetros. Em que é que pensariam as pessoas desses carros? Como olhariam para o autocarro dos miúdos que avançava com eles para o torneio?
Comecei a contar os carros. Um, dois, três… Mas logo desisti, porque eram muitos, e eu tinha de concentrar-me na condução. Muitos carros, mesmo muitos. Formava-se uma fila na planície, na estrada que naquela altura fazia uma curva longa, uma fila de luzes passada para o meu espelho retrovisor, e foi essa imagem que eu decorei, como depois fiz com a da fotografia. A imagem de uma serpente de luzes na planície, pela estrada fora, atrás do autocarro da cidade levantada e principal.
António Manuel Venda amvenda@sapo.pt
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terça-feira, 12 de abril de 2011
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