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terça-feira, 7 de maio de 2013

Palavras fúteis…

Sempre que a audácia se apossa
Das mãos inúteis
Vem o vento com palavras fúteis
E a esperança derruba, desastrosa
É a força da palavra lançada como pedras
Sempre que o vento renega as evidências
Baila comodamente por entre aparências
Chicoteia a vontade alheia, o amor e o brio
Ignorando o corpo a seus pés tremendo de frio

Vira ladainha na vontade trancada
Moinha deslizando na mão
Que manipula a vontade roubada
Há força que paira num triste coração.

Antónia Ruivo   antónia_ruivo@hotmail.com

Chisco de gente


Nem do medo agreste o meu peito geme
Sou metade de uma outra laranja
Na rebeldia que a morte teme
No meu xaile desfolho a franja

Na minha vida a porta cerrada
O breu do escuro tranca maldita
Não me impede, estou de abalada
Mais um dia que a luta dita

Já não abano ao passar dos anos
Há muito que deixei de ter
Esperança nos desenganos
Sou somente leveza e ser

Chisco de gente de uma terra em cacos
Sou alma vadia correndo ao vento
Alimento-me de secos nacos
Sem arreios no pensamento.

Antónia Ruivo    antónia_ruivo@hotmail.com

Silêncios da memória


Trouxe para casa
a serenidade daquele banco de jardim
e a frescura da tarde junto ao mar.


Trouxe para casa
os silêncios da alma impregnada de paz
e a cor fugidia dos últimos raios de sol.


Trouxe para casa
os minutos de ternura presos no teu gesto
e as brincadeiras felizes da tua mente livre.


Trouxe para casa
a saudade do ontem que alimenta o amanhã
e a alegria diluída nos instantes fugazes.


Trouxe para casa
o universo de memórias que afagam o meu espírito
e o tempo longínquo de outras vidas sonhadas.


Trouxe para casa
as palavras de outrora que se perderam na areia
e as melodias instantâneas das vagas desfeitas.


Trouxe para casa
a alma cheia daquela fugaz e doce tarde
e os momentos infinitos que perduram em mim.




Trouxe para casa
a simplicidade de um olhar perdido no horizonte
e a memória das palavras que ficaram por dizer.

Jacinta Salgueiro jacinta-salgueiro@gmail.com

Equívocos


Para o mais distraído:
Sorte não é ganhar lotaria.
É escapar, sem sentido,
à queda de uma escadaria.

Para o mais descrente:
Fé não é religiosidade vã.
É crença permanente
no dia de amanhã.

Para o mais ambicioso:
Felicidade não é cantar.
É instante valioso
oferecido pelo teu olhar.

Para o mais arrogante:
Sabedoria não é diploma.
É multiplicar as vivências importantes
para a escolha que se toma.

Para o mais ingénuo:
Virtude não é acreditar;
é tão simplesmente dever mútuo
na dádiva de amar.

Jacinta Salgueiro jacinta.salgueiro@gmail.com

quarta-feira, 21 de março de 2012

Chá

Fiz um chá
afinei o sofá
E digo Não à televisão
e ao blá-blá

Já não dá
para me mexer
Pus um standard
a correr

 

Talvez me aficione
ou me condicione
Ou até
nem sequer funcione

Mas aposto
que o som que escolhi
me define
Anthropology

A febre a arder
teima em não descer
Até dá jeito este enjeito
e o recolher

Vai parecer
que não fui trabalhar
para pôr o meu jazz
a rodar

Talvez me aficione
ou me condicione
Ou até
nem sequer funcione

E àqueles
que pensarem que menti
Aconselho o
Anthropology

Pode não
baixar o ardor
mas... drogas não,
senhor doutor!
O Anthropology
dar-me-á vigor.

António Xavier  tozexavier@gmail.com 

terça-feira, 20 de março de 2012

Vida

Sabes, amor?!
---

A… A vida. A vida vai…

Deixar de ser… De ser sempre andando.

---
Estou no centro da cidade, amor
Nesta flâmula luzente de chamas
Lutarei cego contra o que nos cegou
Dando a nós o desuso de mim
---
Arde a catacumba metropolitana, amor
Apaziguando a nossa alma em destroços
E nas artérias do nosso subsolo
Impor-se-á a nossa vontade de viver
---
Da sobrecarga de preocupações, amor
Na inércia do despotismo em nós
Solto as correntes para nos socorrer
Pois que sabes que; pois que sabes que…
---
A… A vida. A vida vai…
Deixar de ser… De ser sempre andando.
---
Enquanto os relógios se esbatem no chão
E as moedas e notas se esvaem no ar
São apenas os estados de alma que ouves
Neste desejo que é a sede de sermos nós
---
Da sobrecarga de preocupações, amor
Na inércia do despotismo em nós
Solto as correntes para nos socorrer
Pois que sabes que; pois que sabes que…
---
A… A vida. A vida vai…
Deixar de ser… De ser sempre andando.
---
Ficas a saber, meu amor…




Jorge Freitas Ferreira jorgefreitasferreira@gmail.com

Autor do Amor


Eu sou o autor do amor
Dos sorrisos ou do corpo curvilíneo trabalhado, a rima da solidão. Da actividade cerebral ou das prosas abduzidas com Ctrl+C, a carcaça dura. Bichos acossados: frágeis, quebradiços. O coração gangrenado e em hipotermia sentimental. Solidão. Incompreensão. Vazio. Desistência. Insistência. Perdas. Retomas. Manhãs de regresso.


Eu sou o autor do amor
O preciosismo. Cirurgia de afectos. Veias, articulações e o nervo ciático esmagado a formigar-nos os pés voadores. Pequenas incisões de amor, largos derrames de perda. Rios de sangue-sangue lacrimoso. O esmagador desejo de ter crónica a presença de quem faz falta. Costura com gente que se ama cá dentro. Nas entranhas, no fundo do que não volta a nascer. O vida numa lógica orgânica e descontrolada.


Eu sou o autor do amor
Tenho um pequeno laboratório perto das casas de quem amo, onde componho sentimentos absurdos – uns atrás dos outros! Onde não aceito e complico a química do que é simples. O amor, para quem não sabe e quer saber, é um líquido natural. Transparente. Genuíno. Imprescindível para sobrevivermos. É água que se bebe da torneira.
Eu sou o autor do amor
Se tomasse um cocktail glamoroso de comprimidos antes do jantar, sei que virias em meu auxílio por breves momentos. Se a minha doença fosse maior, talvez prolongada, tu estarias ao meu lado a adormecer-me do destino Por agora, na nossa corrida do dia pelo dia, gritas-me da tua varanda para que termine a minha investigação: “Jorge, por favor, esquece um pouco o amor e trata de ti...”

Jorge Freitas Ferreira (Zorze Zorzinelis) jorgefreitasferreira@gmail.com

segunda-feira, 19 de março de 2012

Quando estou só

Quando estou só
Mais só do que a bebida
Fico a aquecer
Na esplanada esquecida

Quando estou só
Fechado no meu fecho
A pensar no que deixo
Passar-me pela cabeça

 
E dou-me só
Ao que a mente me dá
Não te quero por cá
Mesmo que te apeteça

E se estou só
É porque quero estar
Quieto a arrumar
Os anexos da vida

Mesmo que te apeteça
Conduz-te pela saída.


Quando estou só
Como deixado ali
A ganhar pó
Derretido em Dali

Porque estou só
Espalhado pelo quarto
Mais apagado e farto
Que a luz da cabeceira

Só fico só
E fico muito bem
Sou um, pareço cem
Picando a vida inteira

E estarei só
Quando quiser estar
O bem e o mal-estar
Em quem luta por si

Mas se vens à minha beira
Vou segurar-me a ti.


António Xavier tozexavier@gmail.com

Para ti

Não te conto em veludo
O veludo que escrevo
Assim não digo tudo
Aquilo que não devo

Nem doce, nem salgado
Apenas um poema
Bem mal amanhado
Sem manha, sem tema

E não é
aveludado
O veludo que escrevo


Não te conto muita coisa
Não são coisas de contar
Que cheiro as tuas cores
Nas flores que me dão ar

E tenho-as no jardim
Nos vasos e nos chás
E planto-as em mim
Quando há horas más

Não te conto as que
enfim
Não são coisas de contar


Não uso partitura
Não consigo afinar
Só anoto sem figura
O mais fácil de contar
Não livro dos segredos
As linhas do meu coser
Do posto dos meus medos
Nunca tas hei de ler

E não tendo
partitura
Não consigo afinar


Folhas moles, linhas duras
Versos a passar
Letras, notas e figuras
Música a velejar



Folhas moles, linhas duras
Notas a tocar
Sem letras, notas nem figuras
Queria a ti chegar
Nem letras
nem figuras
Só notas a tocar…

 
António Xavier tozexavier@gmail.com

Noite


Maria José Lascas

in Morada da poesia, Castro Verde, CMCV, 2011

[Reservados os direitos de autor.]

Azinheiras gémeas



Maria José Lascas

in Morada da poesia, Castro Verde, CMCV, 2011

[Reservados os direitos de autor.]

Na página da terra



Luís Maçarico

in Morada da poesia, Castro Verde, CMCV, 2011

[Reservados os direitos de autor.]

Nome de terra e sol


Luís Maçarico

in Morada da poesia, Castro Verde, CMCV, 2011

[Reservados os direitos de autor.]

domingo, 18 de março de 2012

Bobo da corte

Eu sou o bobo da corte
Riam, palhaços, riam
E não deixem de aplaudir
Quem sabe, a minha loucura
Feita de amor e ternura
Não vos irá destruir?



Eu sou o bobo da corte
Cuja sorte não invejo
Até já perdi o norte
Mas quem sabe se, com sorte
Não encontro o que desejo?

Riam, palhaços, riam
Mas da vossa ingratidão
Quando a festa terminar
Eu trocarei de lugar
Já não serei bobo, não
E num incontido prazer
Mostrarei meu coração
E toda a plateia há de ver
Quem são os bobos, quem são


Conceição Costa

Memórias de casamento

Hoje brindo ao meu fracasso
sem taça, prenda ou abraço



Hoje brindo à memória
De uma longa e triste história
Que há muito deixei de ler
Porque alguém rasgou o livro
E a história sem sentido
Acabou por se perder
Abrindo a arca do tempo
Revivo meu desalento

E sem taça, prenda ou abraço
Hoje brindo ao meu fracasso


Conceição Costa

quinta-feira, 15 de março de 2012

La solitude

 Etre seul c’est triste

Quand on est jeune ou vieux, femme ou homme… que c’est triste d’être seul… seule, seul… tout le monde est égaux car la solitude n’a pas de genre.

Pourquoi la vie fait qu’une personne se retrouve seule…

Cela ne devrais pas arriver… séparation, divorce, décès, chômage… pourtant la solitude s’installe malgré soi, malgré notre caractère sociable, malgré l’envie d’être avec les gents… et d’aimer la vie, dans un monde perdu dans l’immensité égoïste….

 Que c’est triste la solitude…
Parfois la colère s’installe après tant d’état d’âme,
Le «ras le bol»  d’être enfermée sur soi, et d’avoir de mauvaises pensées ne pas pouvoir les partager ; Car la solitude vous fait pensé à tort et à travers pour vous torturé l’âme,
C’est le refus infantile de la solitude.

Que c’est triste d’être seule quand on aime la vie.
Apportant le désespoir à quelqu’un qui n’a plus d’espoir,
Vouloir a tout prix croisé le chemin d’un être qui ne veut plus lui aussi être seul.

Pourtant comme le dit Gilbert Becaud : la solitude n’existe pas,

Pourtant,
L’isolement social existe bien, quand c’est voulu, par exemple : pour l’artiste qui cherche dans la solitude l’inspiration.
Qui n’a pas rêvé un jour de tout lâcher… d’en avoir eu assez de trop de stimuli de cette société, car en excès c’est l’angoisse qui nous guette, nous retrouver avec nous même, si nous choisissons de vivre hors du système social, il faut bien entendu avoir beaucoup de force et résister pour ainsi augmenter notre richesse intérieur, cette fois la solitude est le meilleur remède apportant, une certitude, réapprendre a communiquer avec soi même.

Que c’est triste
La solitude quand elle n’est pas voulue,
Mais tellement importante quand on parvient a l’acceptation,
La solitude ainsi révèle la croissance de l’âme,
Pour finalement prendre conscience de soi.


Alice Alves  alice.alvesm@gmail.com

Havia uma dor redonda no céu

Havia uma dor redonda no céu.
A estrada estava parada.
E lágrimas desceram e molharam os sinais
A silhueta esgueirou-se no pó
E o lume espalhou a confusão muda



Um dia a estrada não estará no mesmo lugar

E só chegaremos a rios incertos.


Custódia Santos   custodia-santos@hotmail.com

Quando eu quiser atravesso o rio

Quando eu quiser atravesso o rio
Enlaço-me no seu corpo e navego
Roubo-lhe as pedras e as correntes
E visto-me nele













Hei-de cuspir as feridas nas margens

E as minhas mãos serão futuros
E os olhos searas de maios.

O meu destino não terá mais chegadas.
E nas partidas não soará o vento.


Custódia Santos   custodia-santos@hotmail.com 

terça-feira, 13 de março de 2012

O rouxinol

O maestro rouxinol
Passa a vida a cantar
Canta à lua canta ao sol
Canta sempre sem parar.


De manhã até à noite
De dia ou ao luar
Faça frio ou calor
Desde a terra até ao mar.




É uma melodia infinita
Que encanta toda a gente
Canta sempre toda a vida
E assobia alegremente.

Como eu gosto de o ouvir
A entoar pelo campo.
É a liberdade a sorrir
Que ser livre também é canto.


Juvenália Cantanhede