Eu sou o autor do amor
Dos sorrisos ou do corpo curvilíneo trabalhado, a rima da solidão. Da actividade cerebral ou das prosas abduzidas com Ctrl+C, a carcaça dura. Bichos acossados: frágeis, quebradiços. O coração gangrenado e em hipotermia sentimental. Solidão. Incompreensão. Vazio. Desistência. Insistência. Perdas. Retomas. Manhãs de regresso.
Eu sou o autor do amor
O preciosismo. Cirurgia de afectos. Veias, articulações e o nervo ciático esmagado a formigar-nos os pés voadores. Pequenas incisões de amor, largos derrames de perda. Rios de sangue-sangue lacrimoso. O esmagador desejo de ter crónica a presença de quem faz falta. Costura com gente que se ama cá dentro. Nas entranhas, no fundo do que não volta a nascer. O vida numa lógica orgânica e descontrolada.
Eu sou o autor do amor
Tenho um pequeno laboratório perto das casas de quem amo, onde componho sentimentos absurdos – uns atrás dos outros! Onde não aceito e complico a química do que é simples. O amor, para quem não sabe e quer saber, é um líquido natural. Transparente. Genuíno. Imprescindível para sobrevivermos. É água que se bebe da torneira.
Eu sou o autor do amor
Se tomasse um cocktail glamoroso de comprimidos antes do jantar, sei que virias em meu auxílio por breves momentos. Se a minha doença fosse maior, talvez prolongada, tu estarias ao meu lado a adormecer-me do destino Por agora, na nossa corrida do dia pelo dia, gritas-me da tua varanda para que termine a minha investigação: “Jorge, por favor, esquece um pouco o amor e trata de ti...”
Jorge Freitas Ferreira (Zorze Zorzinelis) jorgefreitasferreira@gmail.com
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