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domingo, 18 de março de 2012

Memórias de casamento

Hoje brindo ao meu fracasso
sem taça, prenda ou abraço



Hoje brindo à memória
De uma longa e triste história
Que há muito deixei de ler
Porque alguém rasgou o livro
E a história sem sentido
Acabou por se perder
Abrindo a arca do tempo
Revivo meu desalento

E sem taça, prenda ou abraço
Hoje brindo ao meu fracasso


Conceição Costa

quinta-feira, 15 de março de 2012

La solitude

 Etre seul c’est triste

Quand on est jeune ou vieux, femme ou homme… que c’est triste d’être seul… seule, seul… tout le monde est égaux car la solitude n’a pas de genre.

Pourquoi la vie fait qu’une personne se retrouve seule…

Cela ne devrais pas arriver… séparation, divorce, décès, chômage… pourtant la solitude s’installe malgré soi, malgré notre caractère sociable, malgré l’envie d’être avec les gents… et d’aimer la vie, dans un monde perdu dans l’immensité égoïste….

 Que c’est triste la solitude…
Parfois la colère s’installe après tant d’état d’âme,
Le «ras le bol»  d’être enfermée sur soi, et d’avoir de mauvaises pensées ne pas pouvoir les partager ; Car la solitude vous fait pensé à tort et à travers pour vous torturé l’âme,
C’est le refus infantile de la solitude.

Que c’est triste d’être seule quand on aime la vie.
Apportant le désespoir à quelqu’un qui n’a plus d’espoir,
Vouloir a tout prix croisé le chemin d’un être qui ne veut plus lui aussi être seul.

Pourtant comme le dit Gilbert Becaud : la solitude n’existe pas,

Pourtant,
L’isolement social existe bien, quand c’est voulu, par exemple : pour l’artiste qui cherche dans la solitude l’inspiration.
Qui n’a pas rêvé un jour de tout lâcher… d’en avoir eu assez de trop de stimuli de cette société, car en excès c’est l’angoisse qui nous guette, nous retrouver avec nous même, si nous choisissons de vivre hors du système social, il faut bien entendu avoir beaucoup de force et résister pour ainsi augmenter notre richesse intérieur, cette fois la solitude est le meilleur remède apportant, une certitude, réapprendre a communiquer avec soi même.

Que c’est triste
La solitude quand elle n’est pas voulue,
Mais tellement importante quand on parvient a l’acceptation,
La solitude ainsi révèle la croissance de l’âme,
Pour finalement prendre conscience de soi.


Alice Alves  alice.alvesm@gmail.com

Havia uma dor redonda no céu

Havia uma dor redonda no céu.
A estrada estava parada.
E lágrimas desceram e molharam os sinais
A silhueta esgueirou-se no pó
E o lume espalhou a confusão muda



Um dia a estrada não estará no mesmo lugar

E só chegaremos a rios incertos.


Custódia Santos   custodia-santos@hotmail.com

Quando eu quiser atravesso o rio

Quando eu quiser atravesso o rio
Enlaço-me no seu corpo e navego
Roubo-lhe as pedras e as correntes
E visto-me nele













Hei-de cuspir as feridas nas margens

E as minhas mãos serão futuros
E os olhos searas de maios.

O meu destino não terá mais chegadas.
E nas partidas não soará o vento.


Custódia Santos   custodia-santos@hotmail.com 

terça-feira, 13 de março de 2012

O rouxinol

O maestro rouxinol
Passa a vida a cantar
Canta à lua canta ao sol
Canta sempre sem parar.


De manhã até à noite
De dia ou ao luar
Faça frio ou calor
Desde a terra até ao mar.




É uma melodia infinita
Que encanta toda a gente
Canta sempre toda a vida
E assobia alegremente.

Como eu gosto de o ouvir
A entoar pelo campo.
É a liberdade a sorrir
Que ser livre também é canto.


Juvenália Cantanhede

Às oliveiras

Olá oliveira fazendeira
Que vives paciente
Pelos campos fora
Ao frio ou calor ardente!

Foste plantada por alguém
Que já nem sabes quem é
Pois ao longo dos tempos
Já conheceste tanta gente
E como uma mulher
És forte e resistente!

Se falasses como nós
Muito nos contarias!
Mas ao olhar para ti
Apenas posso imaginar e sonhar
O tanto que me dirias!

O que viste,
Quem conheceste,
O que foi o teu passado!?
Mas que importa se tu nada me dizes?
Apenas posso aproveitar estes momentos de prazer
De te ver e conhecer!....

Quem te deu vida?
Quem te tratou
E algum dia te aconchegou?
Quem por aí passou?
Quem te amou
E algum dia te chegou ao pé?

Diz-me oliveira
Quem foi?
E quem ainda é?
Diz-me o porquê
Que eu já nem sei,
Não compreendo
Como agora já não te amam
Como outrora foste amada
E cuidadosamente cortada,
Para chegares até aqui?...



E por nada
Te deitarem abaixo
Como quem passa uma borracha no passado,
Caído, apagado,
Como se nada importasse.....

Nada contasse....
Nada existisse simplesmente!....
E nada resta de tão nobre imagem
Para mostrar ao futuro quem foste!...

E um dia,
Nem se sabe que exististe,
Que aqui vieste,
Que por aqui passaste,
Como eu, como toda a gente!
Como um povo que suou e lutou
E dele já nada se sabe....
Nada se conta ou fala!.....

Que importa?
Apenas o dinheiro ou ganância
E uma grande ignorância!....

Obrigado oliveira por existires!
Obrigado por não te terem colhido
Antes de eu chegar!
Obrigado por tudo o que me dás,
A mim e ao mundo!

E, quem algum dia te cortar
E da terra te arrancar,
Será cobarde e criminoso
Que eu terei de condenar!

Porque a minha querida oliveira
Ninguém pode ou deve matar!!!......

Juvenália Cantanhede

Prosa

Hoje fui passear pelo campo, colher umas plantas medicinais e mergulhei na natureza, que teima
em sobreviver da mesma forma em certos lugares como se fosse noutros tempos.
Vi um ribeiro por onde corre uma água quase limpa. À volta os salgueiros brancos e negros... a uva
ursina, os freixos, e muitas silvas.
E o cantar dos passarinhos rompia o silencio do campo, escondidos nas árvores, espreitando de
ramo em ramo, por entre um céu azul e um sol alaranjado já de fim de tarde e uma temperatura tão
agradável!
Tudo tão maravilhoso!....
E tão puro!....



Ao longe o castelo e um velho moinho. E também a cidade .
A paz, o sossego ou a agitação.
Estava tudo tão perto e tão longe. Mas sobretudo tão diferente...
Era só escolher....
E neste final de tarde eu escolhi. Fui caminhando pelas veredas e estradas de terra batida que
quase nem pisei o alcatrão ao regressar à minha casa.

Juvenália Cantanhede

sexta-feira, 2 de março de 2012

...declaração ontológica de IRS... II

 ...absorção... era a Voz do povo um Grito Poético visceral convertido em compostos menores, hidrossolúveis e absorvíveis. senhores da terra – gritava o Povo em tenor, depois da passagem da substância governamental do local de contacto, pelos órgãos, pela pele e pelos endotélios, para o sangue. - vereis que maravilhas podeis ainda fazer com o meu Dobrado esqueleto. na sala quinhentista, lado a lado com os javalis e os veados nem notarão a diferença seus ilustres convidados. Como me havíeis assim Ajudado a desfrutar das vossas riquezas, e nas restantes gerações quedar-me-ei alegre diante das vossas mesas. – o Povo falava com uma Dor abafada e num timbre vibrante de Silêncio. a Maria engolia e o João fugia e eu não sabia como comer. duas sardinhas em lata incomodam muita gente, diziam. era a Voz do Povo que gritava do Cimo das torres das Aldeias e das janelas altas das Cidades. -nada mais podereis desejar ó senhores dos nossos quintais, comeis na nossa mesa com tal delicadeza e arrotais Fartos, com franqueza. louvai enquanto dura a vossa presença nesta cadeira, onde a meu lado, seu grande javardo, comeis Mais que os demais, enfardais demasiado sem que pingo de Vergonha tenhais para me Roubares ainda mais, meu ilustre convidado. – e o Povo não comia...

...secreção... o Povo deixou de comer e começaram as fezes. foi a inevitável secreção de contas para Pagar e direções direcionadas a tomar que entupiu os estômagos do Povo, e a saliva já não chegava para engolir tudo. veio a fome e arrancaram os olhos do rosto, pois, o bolo alimentar azedou e os outros cagaram-se de medo. havia um certo cheiro atípico no ar, algo apodrecia rapidamente.  pouco mais a doar restava na mendicidade do Povo que reclamava apenas pela vida, pela vontade de viver no homem e não na escravidão arredondada de números que consolam os consolados. -senhores, títulos, Palavras, números, podeis sossegar que o tempo parece ainda não ser... ainda a secreção não chega... ainda as palavras não se fizeram ouvir. restando-nos apenas o Grito de Silêncio que move e remove as tripas de Cada Um...

Nuno Cacilhas nunocacilhas@gmail.com

...declaração ontológica de IRS... I


...digestão... era a Voz do povo um Grito poético visceral, grasnidos de Dor abafada pela Luta infértil. às portas dos senhorios da terra, em uníssono, o povo estendia metros de Tripas palpitantes, reservando as extremidades, que se estreitavam numa proporção orgânica e findavam em forma de língua, para presentearem mais tarde tais senhores com belas gravatas. quando a indigestão ocorreu gritaram alto as Palavras: em rejubilo entrego Meus intestinos grossos, do ceco ao recto, para que com eles possais fazer as meias de um natal. entrego-vos também a pele gasta de Trabalhar ao Sol para que, dando-lhe um avesso preciso, possais estufar vossos bancos presidenciais. e espero que não necessiteis de muito mais, mas acaso pela pátria ou por vossas excelências que me governais me sejam pedidos sacrifícios demais, para que sustenteis vossos desejos imperiais, eis-me aqui, sem outra vontade que não esta, com os meus Pés. atenteis que já sem pele os laivos azuis e vermelhos também irão escurecer e talvez feder, mas têm calos pesados e rugosos que darão base firme para um lindo pisa papéis. e se acaso não for do vosso agrado não vos preocupeis, com algum zelo de precisão vossa em anatomia, disponibilizarei ainda o Meu Outro. pois, serrai-os um pouco acima do tornozelo e vede como os dois juntos realizam uma obra de Arte pós modernista quando encimados forem por uma seca flor vermelha, caso tenhais a bondade e a Criatividade...

Nuno Cacilhas nunocacilhas@gmail.com

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Sou uma flor

Sou uma humilde pimpinela azul que se confunde com o céu em pleno meio-dia radioso. Nasci junto de uma carnuda e verde Rosa de Santa Maria. Sei que o princípio dela foi vir dos Açores no tempo do Infante D.Henrique, depois foi-se multiplicando e agora é minha companheira de jardim. Eu terei vida mais breve, porque sou singela e tenho somente cinco pétalas. Contudo, tenho os mesmos sonhos, qual mundo de fadas que se admira da sua grandeza… Gosto de falar a sós comigo e também gosto de desvairar… Oh imaginem quanto, vou contar…



Falando um destes dias com a minha raíz pedi-lhe que alongasse o nosso ADN e crescesse, para ambas podermos ver o maravilhoso mundo, sempre novo… Coisa difícil para ela? Difícil, não é impossível! Como a força anímica me acudisse, enrolei-me na minha raíz, fiz-me mínima corola, quase um ápice de fóton, lancei a minha fugaz vontade ao Universo e este pôs-me aqui, onde me vêem – no topo de uma sequóia!
-Hum, mais alto não posso subir, tal a andança para uma humilde pimpinela…Bom aproveito para ver o que me rodeia! Que vejo?
-Oh ali o planeta está gelado…Não percebo esta relatividade do Einstein… e da sabedoria do Platão já vejo Pártenon de Atenas invadido, não de filósofos…Melhor não dizer nada, e desviar um olhar que me deixa triste… Bom, preciso segurar-me bem no ramo da sequóia que está a ser invadida de um vento que me amedronta…Pois é isso, aqueles ventos ciclónicos além, quase partem os troncos das palmeiras das Antilhas. Como são resistentes as árvores… Adiante, já não vejo as pradarias do índio americano. Estão lá prédios da tua altura, sequóia … O índio, e os seus búfalos mal os distingo numa pradaria de pimpinelas… A sabedoria de Mãe - Gaya é  resistente… Um dia volta tudo ao contrário…
- Mas, agora dou uma volta no meu tenro caule e viro-me para outro lado…O Mar! Não vejo caravelas, vejo cruzeiros agonizantes e vejo tudo coberto da alva neve, tão bonito. Será? Aquela fonte está congelada, nem um pingo de água consegue sair da sua bica… Olha ali os rios, e os canais que vejo congelados e as gôndolas de Veneza não deslizam suavemente, nem posso olhar… Os deuses devem estar loucos!
-Deixa ver outro lado, agarra-me sequóia, vou cair … sou uma simples mortal, bem vês, e agora que vejo? Os beduínos não montam nos seus camelos, mas sim em carros, quatro rodas… o deserto está mais deserto e sem alma … Estou arrepiada. Quero regressar. Isto é alto de mais para mim, faz-me sofrer o ínfimo coração de pimpinela. Mas espera, olha a aurora boreal. Vêm mais urgentes, vibram com mais intensidade e aparecem de cor mais firmes, mais nítidas…. Espera e aqueles agrogramas ali…Sabes defini-los, sequóia?
… As alturas não são para mim. Não quero saber, se há ou não caravelas a regressar de uma Ilha Desconhecida. Não quero saber da palavra da Sibila que anuncia o Quionto Império … As minhas pétalas estão doridas. Desce-me raíz à Mãe-Gaya, gosto mais do meu cantinho debaixo da folha carnuda da Rosa de Santa Maria.


Julieta Amaro Marques

Instantes

Descia a avenida empurrada pelo vento lutando contra o remoinho de folhas que me tolhia os pés. O tempo demasiado seco fizera delas o tapete mais que perfeito para chegar rapidamente ao fundo de um qualquer quarteirão.

Não dava para pensar noutra coisa que não fosse a eminência do trambolhão.
Não seria inédito, nem original.
Como de costume um cotovelo ficaria espetado na calçada aguardando pelo resto do esqueleto…

Mais abaixo duas figuras curvadas contornaram a esquina e do outro lado três jovens saíram a correr do café, metendo ombros à tarefa de chegar ao semáforo antes que o sinal ficasse verde.
Esforço perdido. O autocarro saiu sem eles nesse dia.



As ramadas dos plátanos rugiam sobre a minha cabeça abafando o ruído dos carros que ronronavam no cruzamento. O uivo duma ambulância despedaçou subitamente o fim de tarde. Nada parecia bater certo.

O pensamento seguiu o som angustiante durante algum tempo, até que uma sensação de urgência me apertou o estômago e se foi transformando em agonia.

Encostei-me à parede do prédio mais próximo e deslizei até à entrada. Sentei-me nos degraus. Fechei os olhos. Aguardei que o grito da ambulância se esbatesse dentro da cabeça e me devolvesse, se não o silêncio, pelo menos o barulho do vento nas folhas.

Não foi o barulho das folhas que me fez abrir os olhos.

“Tenho que te contar…”, reconheci a voz e a frase.

Não sei qual era o recado mas sei quem era o mensageiro.

Ainda se ouvia ao longe a sirene.

Qualquer tempo é bom para reencontrar o nosso fantasma.

Mesmo que o encontro seja furtivo.


Maria Augusta Marques.  marquesmariaaugusta@hotmail.com 


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Janeiro

Abeirou-se mesmo agora um raio de sol vadio
Despencou-se dos céus, de entre nuvens grossas
E gordas pela vastidão alimentadas, vaidosas
São todas as sombras desviadas, pelo sol arredio

Neste mês de Janeiro a terra sangra demais, demais…
Por vezes nos beirais dos meus telhados de zinco
Escorrem grossas gotas de sangue, lembram grinaldas no circo
Da vida, ingrato é o mês de Janeiro, quase que avisto Fevereiro
Ai, ais e mais ais me saltam aos olhos, remendos infernais

Memórias reais recuam no tempo, Janeiro desalento
Um chão a história, ingrata memória que o sol despertou
É assim, chegou finalmente a lágrima vazia, e eu aqui estou
Remoendo o passado, passado passou no sol fugidio.

Onde me encontro o momento é confronto entre a chuva e o estio
Pouco ou nada restou, tudo o vento levou, até o ´´ou´´
Na palavra passou ainda agora finou, apenas ficou
A saudade vincada na palavra sovada por subtil arrepio.


Antónia Ruivo biaruivo_gomes@hotmail.com

Comodamente …

Comodamente ``acomodo´´ o pensamento
No perplexo continuado é contínuo o momento
Em que penso por um bocado no meu ``eu´´
Não dou por nada, vejam bem, assim nasceu

Uma ideia absoluta por vezes caricata
Curioso o jeito terno com que idolatra
O meu ``eu´´ desleixado algo amuado
Que teima em permanecer sentado




Comodamente pois então, mas nada de confusão
Este ``eu ´´ de que falo tem a mania que é proveta
Revira-me a cabeça, as ideias fervilham, parece cometa
Caindo a meus pés, uma enorme cratera, o `` eu´´ aflição

Os meus neurónios aguados acusam pecado
Num verso peado, momento travado
Falta a razão, ai agitação que confusão
Poemas e eu o par irreal, instante farsante rolou pelo chão.

Antónia Ruivo biaruivo_gomes@hotmail.com

domingo, 26 de junho de 2011

Carta

Foi tudo tão rápido
que só agora senti a ausência da tua partida.
Quem amo escapa-me entre os dedos
e fico a amar de longe.
E outros há que ficam a magoar-me de longe.
E eu presa nas recordações que me amarram,
presa nos medos que me asfixiam.
Embrulhada na tristeza que me consome e luta,
diariamente, contra a pouca alegria que me mastiga,
que me tenta acordar... diariamente.


Longas são as tempestades que me acompanham
e menos longa a bonança que não chega
e não me abraça.
Longas e fortes as dores,
tristes as lágrimas que me embaraçam...

Beijos com amor...

Mónica Figueiras figueiras_monica@hotmail.com 

Consumir

Bem quisera eu não sofrer
deste mal que me conserva.
Fosse outra a dor que me consome,
da cabeça aos pés,
que me enxuvalha o peito,
que me maltrata a alma.
Fosse outra a dor que me consome.
Ai como queria não sentir, não pensar.
Ai como queria poder escolher.
Estar assim ressequida,
queimada  por dentro.
Esquecida de mim e de tudo.
Perdida no tempo, na mágoa,
no escuro que me consome,
na luz que me não guia.


Fosse eu outra, sendo sempre a mesma.
E porquê sentir, se isto aos poucos me mata?
E para quê calar-me se parece não existir em mim palavras,
que me expliquem o tempo,
que me ditem os medos,
que me iluminem os passos.
Encontro-me e perco-me
e desejo e anseio e espero,
que deixe de ser esta a dor que me consome.

Dentro e Fora (Amar)

Tenho dentro lágrimas de sangue,
Tenho fora lágrimas comuns.
Guardo dentro um grito cortado.
Guardo fora um grito silencioso.
Rasgo-me por dentro, em pedaços
E nesses pedaços, caminho por fora,
Com a segurança que tu me dás,
De dentro para fora.
Reconstruo cada pedaço, dentro,
Como um puzzle onde as peças se unem
Através de formas e cores.
E fora, aparentemente reconstruída, caminho.
Amar: por dentro e por fora
Pois o que está dentro reflecte, como um espelho,
O que te mostro fora.
E o que dentro chora,
Por fora sorri.
E o que dentro grita,
Fala-te, suavemente, por fora.
E o que dentro brilha,
Por fora é tão resplandecente como um raio de sol.

Amar…
E não fosse esse sentimento,
Tão grande, percorrendo por dentro,
As veias, o sangue… tudo…
Não gritaria em sorrisos por fora.
E se rio, choro, grito…
Cada um desses estados de ânimo
Nasceu por amar…
E se reflecte em mim!


Mónica Figueiras figueiras_monica@hotmail.com

Incolor…

As  palavras arrumo na gaveta, vazio
Está o espaço circundante da emoção
As rajadas assolaram pareciam furacão
Por fim o silencio acompanhado pelo frio
Nem o cobertor mais quente traz consolação
Os ossos fendem contorce-se a mão
Por entre os dedos não escorre nada, corrupio
Numa surdez bizantina, já nada me dá aflição  
A gaveta tem o simbolismo de um alçapão
Enterrarei nele a minha e a tua emoção
Porque me perco num tempo que não tenho
Porque ensaio danças que não sei
Eu sei, um dia quando as manhãs eram bonitas sonhei



Com palavras bonitas, todas as inventei
Numa invenção castrada, mas que caso sério
Foi este tempo que se foi agora sei
De um tempo em que palavras na tua boca desenhei
E agora que as arrumo na gaveta, pensei
Serei recta ao pensar sem lei
Que o tempo não se comanda mesmo quando dele desdenho
É ele que assume o fim quer queira quer não, é férreo
O tempo meu amor não entra em contradição
A sua frieza subtil agora sei é incolor e escorre-me da mão.


Antónia Ruivo antonia_ruivo@hotmail.com

terça-feira, 12 de abril de 2011

Uma serpente de luzes na planície

Um dia, se o meu filho se tornar jogador de futebol, poderei oferecer-lhe a fotografia de um dos segundos iniciais da sua carreira. Tirei-a num estádio do Alentejo com relvado sintético e dividido em pequenos campos para que pudesse haver vários jogos ao mesmo tempo. Foi num torneio para miúdos, pequeninos, daqueles que estão mesmo a começar, miúdos de equipas de fama bem diferente – basta pensar nas participações do Benfica e do Alandroal.


Quatro elementos em cada equipa, o guarda-redes, um jogador mais recuado e dois laterais capazes de chegar à baliza adversária; ou outra táctica que se quisesse arranjar. Quando o jogo da equipa do meu filho estava prestes a iniciar-se, subi ao ponto mais alto da bancada e com a objectiva fixei o campo que lhe tinha calhado em sorte. Por isso é que depois fiquei com a fotografia daquele segundo. Nessa fotografia, o guarda-redes mesmo sem o jogo ter começado tenta perceber se algum remate poderá surgir de repente. E à frente dele estão o meu filho e os dois restantes colegas, parecendo que trocam ideias sobre o que hão-de fazer. Talvez defender, pois a outra equipa, por ser de uma cidade grande, pode muito bem tê-los colocado em respeito. Talvez falem disso no seguimento de indicações do treinador. A verdade é que não sei, porque nunca fiz a pergunta.
O jogo acabou por ficar em zero a zero, com a equipa do meu filho a jogar mais à defesa e valendo-se em muito do guarda-redes, que a cada bola que aparecia por perto se atirava sobre ela para logo a seguir se enrolar como um gato. Foi o guarda-redes, e foram os outros que jogaram, todos contribuíram para o empate. E a chuva que teimava em cair, porque a certa altura do jogo ganhou tais proporções que todo o torneio teve de ser interrompido. Tornou-se tão forte que nem os jogadores da cidade grande, com os seus equipamentos impermeáveis, conseguiam jogar, quanto mais a equipa do meu filho, de equipamentos normais.
Mas e que a equipa do meu filho tivesse perdido… Ou que tivesse ganho, ou que o tempo estivesse de sol, ou que do céu em vez de água tivesse caído neve ou granizo… Tanto fazia, porque eu fiquei com a fotografia de um dos segundos iniciais da carreira de futebolista do meu filho, se ele algum dia fizer uma carreira no futebol. Talvez o primeiro segundo. Além de outras fotografias que fui tirando do alto da bancada. Aquela fotografia acabou por passar para a minha mente, porque eu já a vi várias vezes. Posso mesmo dizer que a decorei dentro da cabeça. A imagem de um momento em que o primeiro jogo do meu filho está mesmo, mesmo a começar.
Mas há outra imagem que tenho dentro da cabeça, só que não vem de uma fotografia. Não sei como, mas a verdade é que a decorei também, apesar de a ter visto apenas de forma fugaz. Apareceu-me no espelho retrovisor do carro, talvez uma hora antes do jogo. Chuva, muita chuva nessa imagem ainda do começo da tarde, a caminho do torneio. Os miúdos seguiam no autocarro da câmara, e eu logo atrás, de carro, sem ter pensado se outras famílias além da minha iriam ver os seus miúdos no torneio. A certa altura, com a força da chuva a dificultar-me a visibilidade, dei comigo a pensar no autocarro que seguia vinte ou trinta metros à frente. Não dava para ver bem, foi o que pensei, mas se fosse Verão haveria de perceber-se facilmente as cores fortes do Alentejo, azul, amarelo e vermelho, a pintura do autocarro com o céu limpo, o pasto dos campos e as papoilas, e também uma frase tirada com adaptações do final de um romance de José Saramago, a frase logo a seguir ao nome da terra, «cidade levantada e principal».
Lembro-me de ter pensado nisso. E de ter dito para mim próprio: «os miúdos vão para o torneio, agora que estão a começar no futebol, e vão num autocarro com uma frase enorme de um enorme escritor, não vão patrocinados pela Coca-Cola nem pela Nike (muito menos pela cerveja Sagres), nem sequer vão num autocarro que fala de apoio ao desporto e à juventude e mais uma data de coisas; os miúdos vão no autocarro da frase do Saramago». Foi o que eu disse só para mim, creio que com as minhas filhas pequeninas adormecidas, a julgar pelo silêncio dentro do carro. E então veio o momento do qual decorei a imagem, como depois haveria de decorar a do segundo antes de começar o primeiro jogo do meu filho. No meio daqueles pensamentos, de repente questionei-me se devia levar as luzes ligadas ou não, se deveria apagá-las por a chuva de repente ter começado a diminuir, e aí espreitei pelo espelho retrovisor para ver se atrás de mim algum carro também tinha as luzes ligadas, se é que vinha algum carro atrás de mim na estrada da planície alentejana, e logo percebi que havia muitos carros, e todos com luzes. As famílias dos outros miúdos… Só então é que reparei, depois de ter feito já algumas dezenas de quilómetros. Em que é que pensariam as pessoas desses carros? Como olhariam para o autocarro dos miúdos que avançava com eles para o torneio?
Comecei a contar os carros. Um, dois, três… Mas logo desisti, porque eram muitos, e eu tinha de concentrar-me na condução. Muitos carros, mesmo muitos. Formava-se uma fila na planície, na estrada que naquela altura fazia uma curva longa, uma fila de luzes passada para o meu espelho retrovisor, e foi essa imagem que eu decorei, como depois fiz com a da fotografia. A imagem de uma serpente de luzes na planície, pela estrada fora, atrás do autocarro da cidade levantada e principal.


António Manuel Venda amvenda@sapo.pt