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quarta-feira, 21 de março de 2012

Chá

Fiz um chá
afinei o sofá
E digo Não à televisão
e ao blá-blá

Já não dá
para me mexer
Pus um standard
a correr

 

Talvez me aficione
ou me condicione
Ou até
nem sequer funcione

Mas aposto
que o som que escolhi
me define
Anthropology

A febre a arder
teima em não descer
Até dá jeito este enjeito
e o recolher

Vai parecer
que não fui trabalhar
para pôr o meu jazz
a rodar

Talvez me aficione
ou me condicione
Ou até
nem sequer funcione

E àqueles
que pensarem que menti
Aconselho o
Anthropology

Pode não
baixar o ardor
mas... drogas não,
senhor doutor!
O Anthropology
dar-me-á vigor.

António Xavier  tozexavier@gmail.com 

terça-feira, 20 de março de 2012

Vida

Sabes, amor?!
---

A… A vida. A vida vai…

Deixar de ser… De ser sempre andando.

---
Estou no centro da cidade, amor
Nesta flâmula luzente de chamas
Lutarei cego contra o que nos cegou
Dando a nós o desuso de mim
---
Arde a catacumba metropolitana, amor
Apaziguando a nossa alma em destroços
E nas artérias do nosso subsolo
Impor-se-á a nossa vontade de viver
---
Da sobrecarga de preocupações, amor
Na inércia do despotismo em nós
Solto as correntes para nos socorrer
Pois que sabes que; pois que sabes que…
---
A… A vida. A vida vai…
Deixar de ser… De ser sempre andando.
---
Enquanto os relógios se esbatem no chão
E as moedas e notas se esvaem no ar
São apenas os estados de alma que ouves
Neste desejo que é a sede de sermos nós
---
Da sobrecarga de preocupações, amor
Na inércia do despotismo em nós
Solto as correntes para nos socorrer
Pois que sabes que; pois que sabes que…
---
A… A vida. A vida vai…
Deixar de ser… De ser sempre andando.
---
Ficas a saber, meu amor…




Jorge Freitas Ferreira jorgefreitasferreira@gmail.com

Autor do Amor


Eu sou o autor do amor
Dos sorrisos ou do corpo curvilíneo trabalhado, a rima da solidão. Da actividade cerebral ou das prosas abduzidas com Ctrl+C, a carcaça dura. Bichos acossados: frágeis, quebradiços. O coração gangrenado e em hipotermia sentimental. Solidão. Incompreensão. Vazio. Desistência. Insistência. Perdas. Retomas. Manhãs de regresso.


Eu sou o autor do amor
O preciosismo. Cirurgia de afectos. Veias, articulações e o nervo ciático esmagado a formigar-nos os pés voadores. Pequenas incisões de amor, largos derrames de perda. Rios de sangue-sangue lacrimoso. O esmagador desejo de ter crónica a presença de quem faz falta. Costura com gente que se ama cá dentro. Nas entranhas, no fundo do que não volta a nascer. O vida numa lógica orgânica e descontrolada.


Eu sou o autor do amor
Tenho um pequeno laboratório perto das casas de quem amo, onde componho sentimentos absurdos – uns atrás dos outros! Onde não aceito e complico a química do que é simples. O amor, para quem não sabe e quer saber, é um líquido natural. Transparente. Genuíno. Imprescindível para sobrevivermos. É água que se bebe da torneira.
Eu sou o autor do amor
Se tomasse um cocktail glamoroso de comprimidos antes do jantar, sei que virias em meu auxílio por breves momentos. Se a minha doença fosse maior, talvez prolongada, tu estarias ao meu lado a adormecer-me do destino Por agora, na nossa corrida do dia pelo dia, gritas-me da tua varanda para que termine a minha investigação: “Jorge, por favor, esquece um pouco o amor e trata de ti...”

Jorge Freitas Ferreira (Zorze Zorzinelis) jorgefreitasferreira@gmail.com

segunda-feira, 19 de março de 2012

Quando estou só

Quando estou só
Mais só do que a bebida
Fico a aquecer
Na esplanada esquecida

Quando estou só
Fechado no meu fecho
A pensar no que deixo
Passar-me pela cabeça

 
E dou-me só
Ao que a mente me dá
Não te quero por cá
Mesmo que te apeteça

E se estou só
É porque quero estar
Quieto a arrumar
Os anexos da vida

Mesmo que te apeteça
Conduz-te pela saída.


Quando estou só
Como deixado ali
A ganhar pó
Derretido em Dali

Porque estou só
Espalhado pelo quarto
Mais apagado e farto
Que a luz da cabeceira

Só fico só
E fico muito bem
Sou um, pareço cem
Picando a vida inteira

E estarei só
Quando quiser estar
O bem e o mal-estar
Em quem luta por si

Mas se vens à minha beira
Vou segurar-me a ti.


António Xavier tozexavier@gmail.com

Para ti

Não te conto em veludo
O veludo que escrevo
Assim não digo tudo
Aquilo que não devo

Nem doce, nem salgado
Apenas um poema
Bem mal amanhado
Sem manha, sem tema

E não é
aveludado
O veludo que escrevo


Não te conto muita coisa
Não são coisas de contar
Que cheiro as tuas cores
Nas flores que me dão ar

E tenho-as no jardim
Nos vasos e nos chás
E planto-as em mim
Quando há horas más

Não te conto as que
enfim
Não são coisas de contar


Não uso partitura
Não consigo afinar
Só anoto sem figura
O mais fácil de contar
Não livro dos segredos
As linhas do meu coser
Do posto dos meus medos
Nunca tas hei de ler

E não tendo
partitura
Não consigo afinar


Folhas moles, linhas duras
Versos a passar
Letras, notas e figuras
Música a velejar



Folhas moles, linhas duras
Notas a tocar
Sem letras, notas nem figuras
Queria a ti chegar
Nem letras
nem figuras
Só notas a tocar…

 
António Xavier tozexavier@gmail.com

Noite


Maria José Lascas

in Morada da poesia, Castro Verde, CMCV, 2011

[Reservados os direitos de autor.]

Azinheiras gémeas



Maria José Lascas

in Morada da poesia, Castro Verde, CMCV, 2011

[Reservados os direitos de autor.]

Na página da terra



Luís Maçarico

in Morada da poesia, Castro Verde, CMCV, 2011

[Reservados os direitos de autor.]

Nome de terra e sol


Luís Maçarico

in Morada da poesia, Castro Verde, CMCV, 2011

[Reservados os direitos de autor.]

domingo, 18 de março de 2012

Bobo da corte

Eu sou o bobo da corte
Riam, palhaços, riam
E não deixem de aplaudir
Quem sabe, a minha loucura
Feita de amor e ternura
Não vos irá destruir?



Eu sou o bobo da corte
Cuja sorte não invejo
Até já perdi o norte
Mas quem sabe se, com sorte
Não encontro o que desejo?

Riam, palhaços, riam
Mas da vossa ingratidão
Quando a festa terminar
Eu trocarei de lugar
Já não serei bobo, não
E num incontido prazer
Mostrarei meu coração
E toda a plateia há de ver
Quem são os bobos, quem são


Conceição Costa

Memórias de casamento

Hoje brindo ao meu fracasso
sem taça, prenda ou abraço



Hoje brindo à memória
De uma longa e triste história
Que há muito deixei de ler
Porque alguém rasgou o livro
E a história sem sentido
Acabou por se perder
Abrindo a arca do tempo
Revivo meu desalento

E sem taça, prenda ou abraço
Hoje brindo ao meu fracasso


Conceição Costa

quinta-feira, 15 de março de 2012

La solitude

 Etre seul c’est triste

Quand on est jeune ou vieux, femme ou homme… que c’est triste d’être seul… seule, seul… tout le monde est égaux car la solitude n’a pas de genre.

Pourquoi la vie fait qu’une personne se retrouve seule…

Cela ne devrais pas arriver… séparation, divorce, décès, chômage… pourtant la solitude s’installe malgré soi, malgré notre caractère sociable, malgré l’envie d’être avec les gents… et d’aimer la vie, dans un monde perdu dans l’immensité égoïste….

 Que c’est triste la solitude…
Parfois la colère s’installe après tant d’état d’âme,
Le «ras le bol»  d’être enfermée sur soi, et d’avoir de mauvaises pensées ne pas pouvoir les partager ; Car la solitude vous fait pensé à tort et à travers pour vous torturé l’âme,
C’est le refus infantile de la solitude.

Que c’est triste d’être seule quand on aime la vie.
Apportant le désespoir à quelqu’un qui n’a plus d’espoir,
Vouloir a tout prix croisé le chemin d’un être qui ne veut plus lui aussi être seul.

Pourtant comme le dit Gilbert Becaud : la solitude n’existe pas,

Pourtant,
L’isolement social existe bien, quand c’est voulu, par exemple : pour l’artiste qui cherche dans la solitude l’inspiration.
Qui n’a pas rêvé un jour de tout lâcher… d’en avoir eu assez de trop de stimuli de cette société, car en excès c’est l’angoisse qui nous guette, nous retrouver avec nous même, si nous choisissons de vivre hors du système social, il faut bien entendu avoir beaucoup de force et résister pour ainsi augmenter notre richesse intérieur, cette fois la solitude est le meilleur remède apportant, une certitude, réapprendre a communiquer avec soi même.

Que c’est triste
La solitude quand elle n’est pas voulue,
Mais tellement importante quand on parvient a l’acceptation,
La solitude ainsi révèle la croissance de l’âme,
Pour finalement prendre conscience de soi.


Alice Alves  alice.alvesm@gmail.com

Havia uma dor redonda no céu

Havia uma dor redonda no céu.
A estrada estava parada.
E lágrimas desceram e molharam os sinais
A silhueta esgueirou-se no pó
E o lume espalhou a confusão muda



Um dia a estrada não estará no mesmo lugar

E só chegaremos a rios incertos.


Custódia Santos   custodia-santos@hotmail.com

Quando eu quiser atravesso o rio

Quando eu quiser atravesso o rio
Enlaço-me no seu corpo e navego
Roubo-lhe as pedras e as correntes
E visto-me nele













Hei-de cuspir as feridas nas margens

E as minhas mãos serão futuros
E os olhos searas de maios.

O meu destino não terá mais chegadas.
E nas partidas não soará o vento.


Custódia Santos   custodia-santos@hotmail.com 

terça-feira, 13 de março de 2012

O rouxinol

O maestro rouxinol
Passa a vida a cantar
Canta à lua canta ao sol
Canta sempre sem parar.


De manhã até à noite
De dia ou ao luar
Faça frio ou calor
Desde a terra até ao mar.




É uma melodia infinita
Que encanta toda a gente
Canta sempre toda a vida
E assobia alegremente.

Como eu gosto de o ouvir
A entoar pelo campo.
É a liberdade a sorrir
Que ser livre também é canto.


Juvenália Cantanhede

Às oliveiras

Olá oliveira fazendeira
Que vives paciente
Pelos campos fora
Ao frio ou calor ardente!

Foste plantada por alguém
Que já nem sabes quem é
Pois ao longo dos tempos
Já conheceste tanta gente
E como uma mulher
És forte e resistente!

Se falasses como nós
Muito nos contarias!
Mas ao olhar para ti
Apenas posso imaginar e sonhar
O tanto que me dirias!

O que viste,
Quem conheceste,
O que foi o teu passado!?
Mas que importa se tu nada me dizes?
Apenas posso aproveitar estes momentos de prazer
De te ver e conhecer!....

Quem te deu vida?
Quem te tratou
E algum dia te aconchegou?
Quem por aí passou?
Quem te amou
E algum dia te chegou ao pé?

Diz-me oliveira
Quem foi?
E quem ainda é?
Diz-me o porquê
Que eu já nem sei,
Não compreendo
Como agora já não te amam
Como outrora foste amada
E cuidadosamente cortada,
Para chegares até aqui?...



E por nada
Te deitarem abaixo
Como quem passa uma borracha no passado,
Caído, apagado,
Como se nada importasse.....

Nada contasse....
Nada existisse simplesmente!....
E nada resta de tão nobre imagem
Para mostrar ao futuro quem foste!...

E um dia,
Nem se sabe que exististe,
Que aqui vieste,
Que por aqui passaste,
Como eu, como toda a gente!
Como um povo que suou e lutou
E dele já nada se sabe....
Nada se conta ou fala!.....

Que importa?
Apenas o dinheiro ou ganância
E uma grande ignorância!....

Obrigado oliveira por existires!
Obrigado por não te terem colhido
Antes de eu chegar!
Obrigado por tudo o que me dás,
A mim e ao mundo!

E, quem algum dia te cortar
E da terra te arrancar,
Será cobarde e criminoso
Que eu terei de condenar!

Porque a minha querida oliveira
Ninguém pode ou deve matar!!!......

Juvenália Cantanhede

Prosa

Hoje fui passear pelo campo, colher umas plantas medicinais e mergulhei na natureza, que teima
em sobreviver da mesma forma em certos lugares como se fosse noutros tempos.
Vi um ribeiro por onde corre uma água quase limpa. À volta os salgueiros brancos e negros... a uva
ursina, os freixos, e muitas silvas.
E o cantar dos passarinhos rompia o silencio do campo, escondidos nas árvores, espreitando de
ramo em ramo, por entre um céu azul e um sol alaranjado já de fim de tarde e uma temperatura tão
agradável!
Tudo tão maravilhoso!....
E tão puro!....



Ao longe o castelo e um velho moinho. E também a cidade .
A paz, o sossego ou a agitação.
Estava tudo tão perto e tão longe. Mas sobretudo tão diferente...
Era só escolher....
E neste final de tarde eu escolhi. Fui caminhando pelas veredas e estradas de terra batida que
quase nem pisei o alcatrão ao regressar à minha casa.

Juvenália Cantanhede

sexta-feira, 2 de março de 2012

...declaração ontológica de IRS... II

 ...absorção... era a Voz do povo um Grito Poético visceral convertido em compostos menores, hidrossolúveis e absorvíveis. senhores da terra – gritava o Povo em tenor, depois da passagem da substância governamental do local de contacto, pelos órgãos, pela pele e pelos endotélios, para o sangue. - vereis que maravilhas podeis ainda fazer com o meu Dobrado esqueleto. na sala quinhentista, lado a lado com os javalis e os veados nem notarão a diferença seus ilustres convidados. Como me havíeis assim Ajudado a desfrutar das vossas riquezas, e nas restantes gerações quedar-me-ei alegre diante das vossas mesas. – o Povo falava com uma Dor abafada e num timbre vibrante de Silêncio. a Maria engolia e o João fugia e eu não sabia como comer. duas sardinhas em lata incomodam muita gente, diziam. era a Voz do Povo que gritava do Cimo das torres das Aldeias e das janelas altas das Cidades. -nada mais podereis desejar ó senhores dos nossos quintais, comeis na nossa mesa com tal delicadeza e arrotais Fartos, com franqueza. louvai enquanto dura a vossa presença nesta cadeira, onde a meu lado, seu grande javardo, comeis Mais que os demais, enfardais demasiado sem que pingo de Vergonha tenhais para me Roubares ainda mais, meu ilustre convidado. – e o Povo não comia...

...secreção... o Povo deixou de comer e começaram as fezes. foi a inevitável secreção de contas para Pagar e direções direcionadas a tomar que entupiu os estômagos do Povo, e a saliva já não chegava para engolir tudo. veio a fome e arrancaram os olhos do rosto, pois, o bolo alimentar azedou e os outros cagaram-se de medo. havia um certo cheiro atípico no ar, algo apodrecia rapidamente.  pouco mais a doar restava na mendicidade do Povo que reclamava apenas pela vida, pela vontade de viver no homem e não na escravidão arredondada de números que consolam os consolados. -senhores, títulos, Palavras, números, podeis sossegar que o tempo parece ainda não ser... ainda a secreção não chega... ainda as palavras não se fizeram ouvir. restando-nos apenas o Grito de Silêncio que move e remove as tripas de Cada Um...

Nuno Cacilhas nunocacilhas@gmail.com

...declaração ontológica de IRS... I


...digestão... era a Voz do povo um Grito poético visceral, grasnidos de Dor abafada pela Luta infértil. às portas dos senhorios da terra, em uníssono, o povo estendia metros de Tripas palpitantes, reservando as extremidades, que se estreitavam numa proporção orgânica e findavam em forma de língua, para presentearem mais tarde tais senhores com belas gravatas. quando a indigestão ocorreu gritaram alto as Palavras: em rejubilo entrego Meus intestinos grossos, do ceco ao recto, para que com eles possais fazer as meias de um natal. entrego-vos também a pele gasta de Trabalhar ao Sol para que, dando-lhe um avesso preciso, possais estufar vossos bancos presidenciais. e espero que não necessiteis de muito mais, mas acaso pela pátria ou por vossas excelências que me governais me sejam pedidos sacrifícios demais, para que sustenteis vossos desejos imperiais, eis-me aqui, sem outra vontade que não esta, com os meus Pés. atenteis que já sem pele os laivos azuis e vermelhos também irão escurecer e talvez feder, mas têm calos pesados e rugosos que darão base firme para um lindo pisa papéis. e se acaso não for do vosso agrado não vos preocupeis, com algum zelo de precisão vossa em anatomia, disponibilizarei ainda o Meu Outro. pois, serrai-os um pouco acima do tornozelo e vede como os dois juntos realizam uma obra de Arte pós modernista quando encimados forem por uma seca flor vermelha, caso tenhais a bondade e a Criatividade...

Nuno Cacilhas nunocacilhas@gmail.com

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Sou uma flor

Sou uma humilde pimpinela azul que se confunde com o céu em pleno meio-dia radioso. Nasci junto de uma carnuda e verde Rosa de Santa Maria. Sei que o princípio dela foi vir dos Açores no tempo do Infante D.Henrique, depois foi-se multiplicando e agora é minha companheira de jardim. Eu terei vida mais breve, porque sou singela e tenho somente cinco pétalas. Contudo, tenho os mesmos sonhos, qual mundo de fadas que se admira da sua grandeza… Gosto de falar a sós comigo e também gosto de desvairar… Oh imaginem quanto, vou contar…



Falando um destes dias com a minha raíz pedi-lhe que alongasse o nosso ADN e crescesse, para ambas podermos ver o maravilhoso mundo, sempre novo… Coisa difícil para ela? Difícil, não é impossível! Como a força anímica me acudisse, enrolei-me na minha raíz, fiz-me mínima corola, quase um ápice de fóton, lancei a minha fugaz vontade ao Universo e este pôs-me aqui, onde me vêem – no topo de uma sequóia!
-Hum, mais alto não posso subir, tal a andança para uma humilde pimpinela…Bom aproveito para ver o que me rodeia! Que vejo?
-Oh ali o planeta está gelado…Não percebo esta relatividade do Einstein… e da sabedoria do Platão já vejo Pártenon de Atenas invadido, não de filósofos…Melhor não dizer nada, e desviar um olhar que me deixa triste… Bom, preciso segurar-me bem no ramo da sequóia que está a ser invadida de um vento que me amedronta…Pois é isso, aqueles ventos ciclónicos além, quase partem os troncos das palmeiras das Antilhas. Como são resistentes as árvores… Adiante, já não vejo as pradarias do índio americano. Estão lá prédios da tua altura, sequóia … O índio, e os seus búfalos mal os distingo numa pradaria de pimpinelas… A sabedoria de Mãe - Gaya é  resistente… Um dia volta tudo ao contrário…
- Mas, agora dou uma volta no meu tenro caule e viro-me para outro lado…O Mar! Não vejo caravelas, vejo cruzeiros agonizantes e vejo tudo coberto da alva neve, tão bonito. Será? Aquela fonte está congelada, nem um pingo de água consegue sair da sua bica… Olha ali os rios, e os canais que vejo congelados e as gôndolas de Veneza não deslizam suavemente, nem posso olhar… Os deuses devem estar loucos!
-Deixa ver outro lado, agarra-me sequóia, vou cair … sou uma simples mortal, bem vês, e agora que vejo? Os beduínos não montam nos seus camelos, mas sim em carros, quatro rodas… o deserto está mais deserto e sem alma … Estou arrepiada. Quero regressar. Isto é alto de mais para mim, faz-me sofrer o ínfimo coração de pimpinela. Mas espera, olha a aurora boreal. Vêm mais urgentes, vibram com mais intensidade e aparecem de cor mais firmes, mais nítidas…. Espera e aqueles agrogramas ali…Sabes defini-los, sequóia?
… As alturas não são para mim. Não quero saber, se há ou não caravelas a regressar de uma Ilha Desconhecida. Não quero saber da palavra da Sibila que anuncia o Quionto Império … As minhas pétalas estão doridas. Desce-me raíz à Mãe-Gaya, gosto mais do meu cantinho debaixo da folha carnuda da Rosa de Santa Maria.


Julieta Amaro Marques