Sou uma humilde pimpinela azul que se confunde com o céu em pleno meio-dia radioso. Nasci junto de uma carnuda e verde Rosa de Santa Maria. Sei que o princípio dela foi vir dos Açores no tempo do Infante D.Henrique, depois foi-se multiplicando e agora é minha companheira de jardim. Eu terei vida mais breve, porque sou singela e tenho somente cinco pétalas. Contudo, tenho os mesmos sonhos, qual mundo de fadas que se admira da sua grandeza… Gosto de falar a sós comigo e também gosto de desvairar… Oh imaginem quanto, vou contar…
Falando um destes dias com a minha raíz pedi-lhe que alongasse o nosso ADN e crescesse, para ambas podermos ver o maravilhoso mundo, sempre novo… Coisa difícil para ela? Difícil, não é impossível! Como a força anímica me acudisse, enrolei-me na minha raíz, fiz-me mínima corola, quase um ápice de fóton, lancei a minha fugaz vontade ao Universo e este pôs-me aqui, onde me vêem – no topo de uma sequóia!
-Hum, mais alto não posso subir, tal a andança para uma humilde pimpinela…Bom aproveito para ver o que me rodeia! Que vejo?
-Oh ali o planeta está gelado…Não percebo esta relatividade do Einstein… e da sabedoria do Platão já vejo Pártenon de Atenas invadido, não de filósofos…Melhor não dizer nada, e desviar um olhar que me deixa triste… Bom, preciso segurar-me bem no ramo da sequóia que está a ser invadida de um vento que me amedronta…Pois é isso, aqueles ventos ciclónicos além, quase partem os troncos das palmeiras das Antilhas. Como são resistentes as árvores… Adiante, já não vejo as pradarias do índio americano. Estão lá prédios da tua altura, sequóia … O índio, e os seus búfalos mal os distingo numa pradaria de pimpinelas… A sabedoria de Mãe - Gaya é resistente… Um dia volta tudo ao contrário…
- Mas, agora dou uma volta no meu tenro caule e viro-me para outro lado…O Mar! Não vejo caravelas, vejo cruzeiros agonizantes e vejo tudo coberto da alva neve, tão bonito. Será? Aquela fonte está congelada, nem um pingo de água consegue sair da sua bica… Olha ali os rios, e os canais que vejo congelados e as gôndolas de Veneza não deslizam suavemente, nem posso olhar… Os deuses devem estar loucos!
-Deixa ver outro lado, agarra-me sequóia, vou cair … sou uma simples mortal, bem vês, e agora que vejo? Os beduínos não montam nos seus camelos, mas sim em carros, quatro rodas… o deserto está mais deserto e sem alma … Estou arrepiada. Quero regressar. Isto é alto de mais para mim, faz-me sofrer o ínfimo coração de pimpinela. Mas espera, olha a aurora boreal. Vêm mais urgentes, vibram com mais intensidade e aparecem de cor mais firmes, mais nítidas…. Espera e aqueles agrogramas ali…Sabes defini-los, sequóia?
… As alturas não são para mim. Não quero saber, se há ou não caravelas a regressar de uma Ilha Desconhecida. Não quero saber da palavra da Sibila que anuncia o Quionto Império … As minhas pétalas estão doridas. Desce-me raíz à Mãe-Gaya, gosto mais do meu cantinho debaixo da folha carnuda da Rosa de Santa Maria.
Julieta Amaro Marques


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