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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Sou uma flor

Sou uma humilde pimpinela azul que se confunde com o céu em pleno meio-dia radioso. Nasci junto de uma carnuda e verde Rosa de Santa Maria. Sei que o princípio dela foi vir dos Açores no tempo do Infante D.Henrique, depois foi-se multiplicando e agora é minha companheira de jardim. Eu terei vida mais breve, porque sou singela e tenho somente cinco pétalas. Contudo, tenho os mesmos sonhos, qual mundo de fadas que se admira da sua grandeza… Gosto de falar a sós comigo e também gosto de desvairar… Oh imaginem quanto, vou contar…



Falando um destes dias com a minha raíz pedi-lhe que alongasse o nosso ADN e crescesse, para ambas podermos ver o maravilhoso mundo, sempre novo… Coisa difícil para ela? Difícil, não é impossível! Como a força anímica me acudisse, enrolei-me na minha raíz, fiz-me mínima corola, quase um ápice de fóton, lancei a minha fugaz vontade ao Universo e este pôs-me aqui, onde me vêem – no topo de uma sequóia!
-Hum, mais alto não posso subir, tal a andança para uma humilde pimpinela…Bom aproveito para ver o que me rodeia! Que vejo?
-Oh ali o planeta está gelado…Não percebo esta relatividade do Einstein… e da sabedoria do Platão já vejo Pártenon de Atenas invadido, não de filósofos…Melhor não dizer nada, e desviar um olhar que me deixa triste… Bom, preciso segurar-me bem no ramo da sequóia que está a ser invadida de um vento que me amedronta…Pois é isso, aqueles ventos ciclónicos além, quase partem os troncos das palmeiras das Antilhas. Como são resistentes as árvores… Adiante, já não vejo as pradarias do índio americano. Estão lá prédios da tua altura, sequóia … O índio, e os seus búfalos mal os distingo numa pradaria de pimpinelas… A sabedoria de Mãe - Gaya é  resistente… Um dia volta tudo ao contrário…
- Mas, agora dou uma volta no meu tenro caule e viro-me para outro lado…O Mar! Não vejo caravelas, vejo cruzeiros agonizantes e vejo tudo coberto da alva neve, tão bonito. Será? Aquela fonte está congelada, nem um pingo de água consegue sair da sua bica… Olha ali os rios, e os canais que vejo congelados e as gôndolas de Veneza não deslizam suavemente, nem posso olhar… Os deuses devem estar loucos!
-Deixa ver outro lado, agarra-me sequóia, vou cair … sou uma simples mortal, bem vês, e agora que vejo? Os beduínos não montam nos seus camelos, mas sim em carros, quatro rodas… o deserto está mais deserto e sem alma … Estou arrepiada. Quero regressar. Isto é alto de mais para mim, faz-me sofrer o ínfimo coração de pimpinela. Mas espera, olha a aurora boreal. Vêm mais urgentes, vibram com mais intensidade e aparecem de cor mais firmes, mais nítidas…. Espera e aqueles agrogramas ali…Sabes defini-los, sequóia?
… As alturas não são para mim. Não quero saber, se há ou não caravelas a regressar de uma Ilha Desconhecida. Não quero saber da palavra da Sibila que anuncia o Quionto Império … As minhas pétalas estão doridas. Desce-me raíz à Mãe-Gaya, gosto mais do meu cantinho debaixo da folha carnuda da Rosa de Santa Maria.


Julieta Amaro Marques

Instantes

Descia a avenida empurrada pelo vento lutando contra o remoinho de folhas que me tolhia os pés. O tempo demasiado seco fizera delas o tapete mais que perfeito para chegar rapidamente ao fundo de um qualquer quarteirão.

Não dava para pensar noutra coisa que não fosse a eminência do trambolhão.
Não seria inédito, nem original.
Como de costume um cotovelo ficaria espetado na calçada aguardando pelo resto do esqueleto…

Mais abaixo duas figuras curvadas contornaram a esquina e do outro lado três jovens saíram a correr do café, metendo ombros à tarefa de chegar ao semáforo antes que o sinal ficasse verde.
Esforço perdido. O autocarro saiu sem eles nesse dia.



As ramadas dos plátanos rugiam sobre a minha cabeça abafando o ruído dos carros que ronronavam no cruzamento. O uivo duma ambulância despedaçou subitamente o fim de tarde. Nada parecia bater certo.

O pensamento seguiu o som angustiante durante algum tempo, até que uma sensação de urgência me apertou o estômago e se foi transformando em agonia.

Encostei-me à parede do prédio mais próximo e deslizei até à entrada. Sentei-me nos degraus. Fechei os olhos. Aguardei que o grito da ambulância se esbatesse dentro da cabeça e me devolvesse, se não o silêncio, pelo menos o barulho do vento nas folhas.

Não foi o barulho das folhas que me fez abrir os olhos.

“Tenho que te contar…”, reconheci a voz e a frase.

Não sei qual era o recado mas sei quem era o mensageiro.

Ainda se ouvia ao longe a sirene.

Qualquer tempo é bom para reencontrar o nosso fantasma.

Mesmo que o encontro seja furtivo.


Maria Augusta Marques.  marquesmariaaugusta@hotmail.com 


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Janeiro

Abeirou-se mesmo agora um raio de sol vadio
Despencou-se dos céus, de entre nuvens grossas
E gordas pela vastidão alimentadas, vaidosas
São todas as sombras desviadas, pelo sol arredio

Neste mês de Janeiro a terra sangra demais, demais…
Por vezes nos beirais dos meus telhados de zinco
Escorrem grossas gotas de sangue, lembram grinaldas no circo
Da vida, ingrato é o mês de Janeiro, quase que avisto Fevereiro
Ai, ais e mais ais me saltam aos olhos, remendos infernais

Memórias reais recuam no tempo, Janeiro desalento
Um chão a história, ingrata memória que o sol despertou
É assim, chegou finalmente a lágrima vazia, e eu aqui estou
Remoendo o passado, passado passou no sol fugidio.

Onde me encontro o momento é confronto entre a chuva e o estio
Pouco ou nada restou, tudo o vento levou, até o ´´ou´´
Na palavra passou ainda agora finou, apenas ficou
A saudade vincada na palavra sovada por subtil arrepio.


Antónia Ruivo biaruivo_gomes@hotmail.com

Comodamente …

Comodamente ``acomodo´´ o pensamento
No perplexo continuado é contínuo o momento
Em que penso por um bocado no meu ``eu´´
Não dou por nada, vejam bem, assim nasceu

Uma ideia absoluta por vezes caricata
Curioso o jeito terno com que idolatra
O meu ``eu´´ desleixado algo amuado
Que teima em permanecer sentado




Comodamente pois então, mas nada de confusão
Este ``eu ´´ de que falo tem a mania que é proveta
Revira-me a cabeça, as ideias fervilham, parece cometa
Caindo a meus pés, uma enorme cratera, o `` eu´´ aflição

Os meus neurónios aguados acusam pecado
Num verso peado, momento travado
Falta a razão, ai agitação que confusão
Poemas e eu o par irreal, instante farsante rolou pelo chão.

Antónia Ruivo biaruivo_gomes@hotmail.com

domingo, 26 de junho de 2011

Carta

Foi tudo tão rápido
que só agora senti a ausência da tua partida.
Quem amo escapa-me entre os dedos
e fico a amar de longe.
E outros há que ficam a magoar-me de longe.
E eu presa nas recordações que me amarram,
presa nos medos que me asfixiam.
Embrulhada na tristeza que me consome e luta,
diariamente, contra a pouca alegria que me mastiga,
que me tenta acordar... diariamente.


Longas são as tempestades que me acompanham
e menos longa a bonança que não chega
e não me abraça.
Longas e fortes as dores,
tristes as lágrimas que me embaraçam...

Beijos com amor...

Mónica Figueiras figueiras_monica@hotmail.com 

Consumir

Bem quisera eu não sofrer
deste mal que me conserva.
Fosse outra a dor que me consome,
da cabeça aos pés,
que me enxuvalha o peito,
que me maltrata a alma.
Fosse outra a dor que me consome.
Ai como queria não sentir, não pensar.
Ai como queria poder escolher.
Estar assim ressequida,
queimada  por dentro.
Esquecida de mim e de tudo.
Perdida no tempo, na mágoa,
no escuro que me consome,
na luz que me não guia.


Fosse eu outra, sendo sempre a mesma.
E porquê sentir, se isto aos poucos me mata?
E para quê calar-me se parece não existir em mim palavras,
que me expliquem o tempo,
que me ditem os medos,
que me iluminem os passos.
Encontro-me e perco-me
e desejo e anseio e espero,
que deixe de ser esta a dor que me consome.

Dentro e Fora (Amar)

Tenho dentro lágrimas de sangue,
Tenho fora lágrimas comuns.
Guardo dentro um grito cortado.
Guardo fora um grito silencioso.
Rasgo-me por dentro, em pedaços
E nesses pedaços, caminho por fora,
Com a segurança que tu me dás,
De dentro para fora.
Reconstruo cada pedaço, dentro,
Como um puzzle onde as peças se unem
Através de formas e cores.
E fora, aparentemente reconstruída, caminho.
Amar: por dentro e por fora
Pois o que está dentro reflecte, como um espelho,
O que te mostro fora.
E o que dentro chora,
Por fora sorri.
E o que dentro grita,
Fala-te, suavemente, por fora.
E o que dentro brilha,
Por fora é tão resplandecente como um raio de sol.

Amar…
E não fosse esse sentimento,
Tão grande, percorrendo por dentro,
As veias, o sangue… tudo…
Não gritaria em sorrisos por fora.
E se rio, choro, grito…
Cada um desses estados de ânimo
Nasceu por amar…
E se reflecte em mim!


Mónica Figueiras figueiras_monica@hotmail.com

Incolor…

As  palavras arrumo na gaveta, vazio
Está o espaço circundante da emoção
As rajadas assolaram pareciam furacão
Por fim o silencio acompanhado pelo frio
Nem o cobertor mais quente traz consolação
Os ossos fendem contorce-se a mão
Por entre os dedos não escorre nada, corrupio
Numa surdez bizantina, já nada me dá aflição  
A gaveta tem o simbolismo de um alçapão
Enterrarei nele a minha e a tua emoção
Porque me perco num tempo que não tenho
Porque ensaio danças que não sei
Eu sei, um dia quando as manhãs eram bonitas sonhei



Com palavras bonitas, todas as inventei
Numa invenção castrada, mas que caso sério
Foi este tempo que se foi agora sei
De um tempo em que palavras na tua boca desenhei
E agora que as arrumo na gaveta, pensei
Serei recta ao pensar sem lei
Que o tempo não se comanda mesmo quando dele desdenho
É ele que assume o fim quer queira quer não, é férreo
O tempo meu amor não entra em contradição
A sua frieza subtil agora sei é incolor e escorre-me da mão.


Antónia Ruivo antonia_ruivo@hotmail.com

terça-feira, 12 de abril de 2011

Uma serpente de luzes na planície

Um dia, se o meu filho se tornar jogador de futebol, poderei oferecer-lhe a fotografia de um dos segundos iniciais da sua carreira. Tirei-a num estádio do Alentejo com relvado sintético e dividido em pequenos campos para que pudesse haver vários jogos ao mesmo tempo. Foi num torneio para miúdos, pequeninos, daqueles que estão mesmo a começar, miúdos de equipas de fama bem diferente – basta pensar nas participações do Benfica e do Alandroal.


Quatro elementos em cada equipa, o guarda-redes, um jogador mais recuado e dois laterais capazes de chegar à baliza adversária; ou outra táctica que se quisesse arranjar. Quando o jogo da equipa do meu filho estava prestes a iniciar-se, subi ao ponto mais alto da bancada e com a objectiva fixei o campo que lhe tinha calhado em sorte. Por isso é que depois fiquei com a fotografia daquele segundo. Nessa fotografia, o guarda-redes mesmo sem o jogo ter começado tenta perceber se algum remate poderá surgir de repente. E à frente dele estão o meu filho e os dois restantes colegas, parecendo que trocam ideias sobre o que hão-de fazer. Talvez defender, pois a outra equipa, por ser de uma cidade grande, pode muito bem tê-los colocado em respeito. Talvez falem disso no seguimento de indicações do treinador. A verdade é que não sei, porque nunca fiz a pergunta.
O jogo acabou por ficar em zero a zero, com a equipa do meu filho a jogar mais à defesa e valendo-se em muito do guarda-redes, que a cada bola que aparecia por perto se atirava sobre ela para logo a seguir se enrolar como um gato. Foi o guarda-redes, e foram os outros que jogaram, todos contribuíram para o empate. E a chuva que teimava em cair, porque a certa altura do jogo ganhou tais proporções que todo o torneio teve de ser interrompido. Tornou-se tão forte que nem os jogadores da cidade grande, com os seus equipamentos impermeáveis, conseguiam jogar, quanto mais a equipa do meu filho, de equipamentos normais.
Mas e que a equipa do meu filho tivesse perdido… Ou que tivesse ganho, ou que o tempo estivesse de sol, ou que do céu em vez de água tivesse caído neve ou granizo… Tanto fazia, porque eu fiquei com a fotografia de um dos segundos iniciais da carreira de futebolista do meu filho, se ele algum dia fizer uma carreira no futebol. Talvez o primeiro segundo. Além de outras fotografias que fui tirando do alto da bancada. Aquela fotografia acabou por passar para a minha mente, porque eu já a vi várias vezes. Posso mesmo dizer que a decorei dentro da cabeça. A imagem de um momento em que o primeiro jogo do meu filho está mesmo, mesmo a começar.
Mas há outra imagem que tenho dentro da cabeça, só que não vem de uma fotografia. Não sei como, mas a verdade é que a decorei também, apesar de a ter visto apenas de forma fugaz. Apareceu-me no espelho retrovisor do carro, talvez uma hora antes do jogo. Chuva, muita chuva nessa imagem ainda do começo da tarde, a caminho do torneio. Os miúdos seguiam no autocarro da câmara, e eu logo atrás, de carro, sem ter pensado se outras famílias além da minha iriam ver os seus miúdos no torneio. A certa altura, com a força da chuva a dificultar-me a visibilidade, dei comigo a pensar no autocarro que seguia vinte ou trinta metros à frente. Não dava para ver bem, foi o que pensei, mas se fosse Verão haveria de perceber-se facilmente as cores fortes do Alentejo, azul, amarelo e vermelho, a pintura do autocarro com o céu limpo, o pasto dos campos e as papoilas, e também uma frase tirada com adaptações do final de um romance de José Saramago, a frase logo a seguir ao nome da terra, «cidade levantada e principal».
Lembro-me de ter pensado nisso. E de ter dito para mim próprio: «os miúdos vão para o torneio, agora que estão a começar no futebol, e vão num autocarro com uma frase enorme de um enorme escritor, não vão patrocinados pela Coca-Cola nem pela Nike (muito menos pela cerveja Sagres), nem sequer vão num autocarro que fala de apoio ao desporto e à juventude e mais uma data de coisas; os miúdos vão no autocarro da frase do Saramago». Foi o que eu disse só para mim, creio que com as minhas filhas pequeninas adormecidas, a julgar pelo silêncio dentro do carro. E então veio o momento do qual decorei a imagem, como depois haveria de decorar a do segundo antes de começar o primeiro jogo do meu filho. No meio daqueles pensamentos, de repente questionei-me se devia levar as luzes ligadas ou não, se deveria apagá-las por a chuva de repente ter começado a diminuir, e aí espreitei pelo espelho retrovisor para ver se atrás de mim algum carro também tinha as luzes ligadas, se é que vinha algum carro atrás de mim na estrada da planície alentejana, e logo percebi que havia muitos carros, e todos com luzes. As famílias dos outros miúdos… Só então é que reparei, depois de ter feito já algumas dezenas de quilómetros. Em que é que pensariam as pessoas desses carros? Como olhariam para o autocarro dos miúdos que avançava com eles para o torneio?
Comecei a contar os carros. Um, dois, três… Mas logo desisti, porque eram muitos, e eu tinha de concentrar-me na condução. Muitos carros, mesmo muitos. Formava-se uma fila na planície, na estrada que naquela altura fazia uma curva longa, uma fila de luzes passada para o meu espelho retrovisor, e foi essa imagem que eu decorei, como depois fiz com a da fotografia. A imagem de uma serpente de luzes na planície, pela estrada fora, atrás do autocarro da cidade levantada e principal.


António Manuel Venda amvenda@sapo.pt

sexta-feira, 25 de março de 2011

O livro da verdade


E agora daqui vamos aos Bilharins que está lá um palheiro da minha idade, tem piada eu ser da idade de um palheiro, eu vou explicar bem para que tudo fique sabendo. O Barahona velho comprou uma manada de burras, eram vinte e quatro para completar doze parelhas para lavrarem lá na herdade dos Bilharins, e mandou fazer uma arramada para a vivenda das ditas burras no monte da Aldeia de Cima, outra arramada na Azeiteira, outra arramada para a classe burrical, eram burras ricas, quem era moural um José Pancadas da Vera Cruz, ele tinha dois filhos, um José Pancadas, outro Ana Pancadas , calculem bem a vida das burras, falta de pancadas não tinham elas, a mulher do moural era Ana Poupa, uma bela geração. Agora vamos conferir a minha idade com o palheiro, foi simples, é que o meu pai andava fazendo o palheiro , as paredes eram de taipa e o meu pai pedreiro alvanel e fazia taipa e andava lá fazendo paredes, eu tinha um irmão com mais treze anos, o meu pai em fazendo taipa em tempo de chuva dormia lá no trabalho para quando chovesse tapar as paredes e o meu irmão vinha a casa na quarta-feira para levar mantimento para o resto da semana. Nasceu este objecto naquela noite de vinte e sete de Março às três da madrugada, ele no outro dia chegou lá e disse, Pai olhe, já lá temos mais outra lesma. É pelo motivo que eu digo quando me procuram a idade quando não me lembro de repente digo, Olha, sou da idade do palheiro dos Bilharins, e pronto.



José Inácio Horta moital@gmail.com

quinta-feira, 24 de março de 2011

O meu prédio tem 133 campainhas


... a maioria dos check-outs são tristes;
o meu matrimonial foi. muito. violento, até. houve outros;
olha, aquele na república dominicana, onde abundavam os fartos buffets;
hoje, quando o dinheiro escasseia no final do mês, cozinho feijão frade com sangacho...

... as saídas, dolorosas ou não, levam-nos a outras entradas;
quando saí do casamento, romantizei-me para recuperar o que de mim tinha caído ao chão;
sem dinheiro, mudei-me para um quarto de uma casa antiga, mas familiar;
os retratos, os naperons, as mobílias roídas pelas traças, os livros em francês e de educação sexual...

... meses depois, novo check-out. foi triste. muito. calmo, até;
procurei uma casa em vão até visitar o prédio das 133 campainhas;
a senhoria não precisou de me vender o espaço: gostei dele mal olhei as campainhas;
eu, no meu T0 e 132 delas a circundarem a minha. e já não me sinto tão triste.



Jorge Freitas Ferreira jorgefreitasferreira@gmail.com

A pedra é a mesma

A pedra é a mesma. Densa, dura e impenetrável como o amor não vivido.
Quando um dia ela falar e esvaziar os seus gritos, eu quero estar lá.
Falará de ti e de mim com a mesma inevitável ambiguidade de desencontros encontrados.
Falará da água que corre nas entranhas da fraga.
Falará dos sobreiros mudos e dos pássaros que lhe cantam canções de embalar.
Falará do segredo dos cardos e dos devaneios das papoilas.
Falará dos perfumes que nos lavam as dores.
Falará do tojo amarelo e da abelha a sugar-lhe o sangue.
Falará dos passos na terra a sangrar alegrias e tristezas.
Falará do pó nos nossos olhos.
Falará da lua e da nossa insustentável vaidade.
Falará indignada da urgência de sermos plural.

Regressará depois ao seu antigo lugar.


Custódia Santos custodia-santos@hotmail.com

A vida é uma estepe de neve amarela cravejada de espinhos voltaicos

A vida é uma estepe de neve amarela cravejada de espinhos voltaicos, seja isso o que for, mesmo que seja nada, não quero saber. Um dia é clara e aberta, noutro obscura como a flor que não chega a abrir e, cá estamos nós À ESPERA DELA IMPUNEMENTE INGÉNUOS E SERENOS. SENTAMO-NOS NAS ESQUINAS E VIMO-LA PASSAR COMO SE FOSSE A POEIRA QUE SE JUNTA DEBAIXO DAS NOSSA CAMAS, DESNECESSÁRIA, PORQUE NÃO SE VÊ. Ora era uma vez a vida……………………………………………………………………………………………………………………………………
A barriga redonda cheirava a melancia e a figos maduros do sol já entediado e patético de luz e corpos redondos. A nuvem desceu e a mulher ficou invisível e surpreendentemente aturdida de raivas e iras. O cheiro da melancia, dispersou-se pelo ar, e os pássaros ficaram frenéticos e as suas asas voaram sozinhas por dentro da chuva dissolvente. Ouviu-se um choro, e as asas desintegraram-se e caíram num campo de papoilas, que se preparavam para um dia de ousadas orgias. Era o mês de Abril e a primavera tinha-se esquecido de voltar a casa. ALGUM AMOR INCONTORNÁVEL E INEVITÁVEL. RESTAVA-NOS ESPERAR E FUGIR DO CAMPO DE PAPOILAS QUE, VOLTEAVAM NO AR AMARRADAS A ASAS LOUCAS E DISFORMES. O choro evidenciava agora uma premente serenidade de medos e alegrias muito breves. A mulher surgiu de dentro da sua invisibilidade e um abraço abafou mágoas intemporais e ancestrais. O sol rasgou intempéries, e sentou-se docemente nos degraus da casa amarela. A mulher aconchegou a criança ao peito e um mar de soluços encheu-lhe a voz de flor de laranjeira. Era vinte de Abril e o dia ameaçava crescer e demorar no seu inultrapassável vaguear de preguiça. A porta entreaberta convidava a entrar e os dois subiram os degraus como se a vida fosse começar agora. A luz branca invadiu-lhes os olhos cheios de impensáveis promessas. A primavera estava finalmente a chegar. A mulher encostou-se ao banco azul e percorreu, sem pressas, a sala cor de limão de móveis dispersos e coloridos de anos distantes.

A viagem tinha durado anos demais e o tempo nunca sabe perdoar. Se um espelho a visse agora não a reconheceria. Os anos não lhe foram leves e ela também não os amou o suficiente para os olhar. Deixou passá-los como se fossem autocarros de viagens sem regressos. A solidão nunca lhe pesou até hoje porque nem sequer a conhecia. Tinha voltado ao inevitável, o lugar onde nunca quis estar. A vida é uma estepe árida e insensata pensou, quando a temos nas nossas mãos ela simplesmente parte. Agora iria recomeçar, como alguns lhe diziam. Ela preferia continuar porque a vida não tem recomeços. Ou se vive ou não.

.

O choro do filho lembrou-lhe que estava viva. A casa ainda distante chamou-a num sussurro preguiçoso e ela entrou. Tinha chegado a hora de a aceitar e voltar a amá-la.
A solidão escondeu-se atrás da porta e quando abraçou o filho soube logo que o futuro é já agora. Sem grandes pressas, numa casa amarela em qualquer lugar do mundo.



Custódia Santos custodia-santos@hotmail.com

O quarto

Tenho no meu quarto, penduradas na porta do guarda-fatos, duas bonecas.
Uma é um anjo. Um anjo da paz que me trouxeram os meus filhos de uma viagem que fizeram à Suécia.
Simboliza a “Paz”.
A minha paz interior, intimista e solitária como o ambiente do meu quarto quando a porta se fecha.
Simboliza também a paz que devemos uns aos outros e que leva à paz universal.
A outra é uma peregrina. Peregrina a Santiago de Compostela. Segura nas mãos a letra “J”. “J” de Jesus. Do meu Jesus que está longe, lá fora mas que me acompanha sempre dentro do meu coração.
Ofereceu-ma ele quando terminámos o primeiro “Caminho” juntos.
Simboliza o “Amor”.
O amor humano, o amor pelo homem que se manifesta quando a porta do quarto se fecha.
Simboliza também o amor maior aquele que nos leva a amar a vida e a defender aquilo em que acreditamos.
Todos os dias quando acordo tenho quatro olhinhos ternos e dois sorrisos doces a darem-me os bons dias e eu saio para a rua com a confiança que me dão, e a certeza de que quando voltar ao meu quarto à noite, encontrarei sempre a Paz e o Amor à minha espera, para me acompanharem em mais uma noite de sono tranquilo.


Etelvina Santos etelvina.mariadossantos@gmail.com

Pedras soltas

Os dias há muitos dias que eram iguais. As noites há muitas noites que eram as mesmas.
Num canto esquecido dum teatro, entre um muro fendado e húmido e uma porta esfolada, que ninguém abria desde há estreias já esquecidas, acordava sempre um homem, nas manhãs limpas ou espessas, e ali adormecia quando o dia partia.
Às vezes, pela vinda da noite, a luz não se apagava totalmente. Então ele contemplava o pedaço de lua branca, semelhante a uma unha, crescendo para coçar o céu com comichão de estrelas; era uma companhia que se deixava ficar até que o homem se entregasse ao primeiro sono.
Chamavam-lhe o Sem-Memória, e tinha nas mãos linhas duma vida encardida. A pele antiga, os olhos da cor de todas as cores que já vira, a boca inquieta, os lábios num teimoso jeito de palavra sempre inacabada e inaudível. E um passado de que não sabia ninguém.
Tinha por amigas umas quantas pedras da calçada, quase soltas, como num subversivo desejo de estragar a perfeição dos enfeites do chão. Ele precisava delas! E havia também por perto uma estátua, que de bom grado lhe estendia uns degraus em troca de nada. Raro caso.
A cada manhã, receava deixar sozinhas as suas sólidas companheiras, mas era preciso circular na cidade algumas horas, levar mensagens às ruas estreitas e trazer segredos das travessas que ninguém mais pisava. Era preciso atravessar praças e largos, acariciando-os com os pés quase descalços. Era urgente mexer-se no mundo, não fosse o mundo esquecer-se de se mover sozinho. Era essa a sua missão.
A memória gasta, mais puída que as roupas, já não lhe mostrava a razão, mas sentia que era seu dever tocar na cidade, como abelha que leva e traz o pólen das flores na Primavera.
Várias vezes no dia, porém, voltava e saudava o seu lar de pedras soltas. Quando vinha cansado, libertava os paralelepípedos de granito do chão, restando um buraco no caminho daqueles que ele não conhecia. Sentava-se aos pés da estátua, rodeava-se de velhos sacos cheios de nada e falava com as pedras. Imaginava que elas lhe respondiam com a voz de alguém do passado. Alguém que lhe gritara demais e que ele já esquecera…
«Essa barba está muito feia e longa e suja!»
«Tu não és esse rosto! Olha para essas rugas!»
E Sem-Memória, com dedos grossos mas delicados, rodava as pedras cúbicas e olhava todas as suas faces, como que esperando que uma fosse apenas silêncio. Apenas pedra.

Numa madrugada sem data, Sem-Memória tinha ainda os olhos fechados de não dormir e escutou passos, passos que pareciam tão antigos como os seus. Deitado junto à porta velha do teatro, ouviu aqueles pés a desacelerarem, sentiu-os parar. Abriu os olhos menos que a grossura das fendas do muro que o amparava e encontrou, desfocados, uns centímetros de pernas desconhecidas na vertical. Apertou as pálpebras, fingiu parar de respirar.
O sol veio roubar a escuridão um minuto depois, e os passos recomeçaram até que o seu som deixasse de se ouvir. Sem-Memória abriu, então, os olhos.
Ao seu lado, no chão, um lápis, uns desenhos, uns óculos, um compasso, um bilhete.
«Eram teus, talvez te recordes. Toma conta das tuas pedras.» Sem assinatura, apenas isto.
Sem perder muito tempo com o sentimento de mistério, colocou os óculos. Tem graça, via melhor! Observou com cuidado os outros objectos, e os seus lábios, mais inquietos que antes, tentavam palavras, como se estivesse à procura de coisas ditas um dia, frases suas. Em vão.
As pedras! Sem-Memórias confirmou que estavam soltas, no seu lugar.

Deixou o largo do teatro, para ir contar às ruas, às travessas e aos largos o que lhe acontecera. Levou apertados nas mãos os desenhos, o lápis e o compasso, e mesmo abandonado pela memória, soube que aquelas folhas tinham os traços e as curvas de calçadas por onde passava.
Esquecido do tempo, nesse dia só regressou à estátua e às suas pedras quando a luz estava pronta para se ir embora. Quis sentar-se nos degraus, convocar as pedras soltas e falar-lhes com os lábios nervosos… Mas já não conseguiu libertá-las. Alguém tinha vindo prendê-las ao chão e apertara-as umas contras as outras com areia.
Sem-Memória sossegou os lábios, sem nada para tentar dizer. Talvez pensasse: de todas as faces, apenas uma de cada pedra podia agora olhá-lo e fazer silêncio. Apenas pedra.



Vera Guita verusca26@gmail.com

Ao amigo fiel

- Olha mamã! Olha aquele cãozinho!
Por favor, mamã, leva o cachorrinho.
Olhar assustado, rabinho encolhido
Vai ser adoptado, fica agradecido
Que lindo “brinquedo” que o menino tem
Serve para o filho e serve para a mãe
Mas cachorro chora, faz xixi no chão
Juízo demora, lá vem confusão
Leva com chinelo, ouve gritaria
Aquele “brinquedo” só dá arrelia
- Olha mamã, olha este imbecil!
- Amanhã de manhã ele vai p’ro canil
Olhar assustado, rabinho encolhido
Vai ser rejeitado, vai ser abatido
Chora pelos donos, faz xixi no chão
Juízo já tem mas não tem perdão

Ou então
Na calada da noite, já ninguém vê nada
Depois do açoite é atirado p’ra estrada
Em correria louca, sem nada entender
Ele grita, ele pára, ele volta a correr
Desorientado, deambula sem tino
Pobre desgraçado, que triste destino!

(…) quem me dera poder esquecer o que já vi.



Conceição Costa (tozexavier@gmail.com)

Adormecer

Primeiro os pensamentos chegam em turbilhão,
invadem a mente sem pedir autorização.
Com a mente assim cheia,
o corpo fica pesado
e afunda-se no colchão
ou no abismo escuro do sono.
Mas de tanto cair no vazio
os pensamentos vão saindo lentamente,
a mente deixa de ter peso,
e torna-se leve,
flutuando num silêncio de águas calmas
ou de espaço exterior.
E já não é peso nem é leveza,
é outra coisa,
de que a mente não tem consciência,
mas o corpo reconhece
e se deixa abandonar ao torpor de entrar nessa outra dimensão
tão desconhecida e tão desejada.
Esse momento mágico,
quase divino
a que chamamos ADORMECER.



Etelvina Santos etelvina.mariadossantos@gmail.com

terça-feira, 22 de março de 2011

Rola a bola num charco de lama

Rola a bola num charco de lama
E um puto descansa na sua cama,
Tentado por um punhado de esperança.
Bebe em todas as fontes, jarros de fama
E sacode-se da multidão que o aclama
Perante a teimosa e irritada dança.

Rola com fúria o pião bailarino,
Sacudido pelo esticão do menino
Traquina, exibindo-se na sua revolta.
Bebe um jarro de elixir no átrio divino,
Para fortalecer o corpinho franzino
E sentir-se como um cavalo à solta.

Rola o mundo constipado a seus pés
E descansa o mar nas agitadas marés
Tentados pela falta de honestidade.
Bebem um gole de poção mágica ao invés
Da solidão. E transborda de lés a lés
A dureza desta sufocada sociedade.

Rola a sina de quem nasceu desvirtuado.
Possuído pela tristeza e desarmado,
Combatendo contra um exército agressivo.
Mas bebe coragem no rio encantado
Para derrotar de um a um, cada soldado
Que lhe fizer frente. Triste mas possessivo!

Rola a ansiedade na barriga esfomeada
Sentindo de meia em meia hora a badalada
De um relógio mágico prenunciando fome.
Bebe um jarro de culpa desencantada,
Proveniente da injustiça acelerada,
Desta maldita sociedade que o consome.

E rolando nesta confusão mundial
Vive o mundo perdido e saturado!
Caminhando aos trambolhões, sufocado,
Mas cantará um dia o hino universal.


Fernando Reis fernandoreis63@portugalmail.pt